Texto I
NÓ, CLÍMAX, DESFECHO
Nó – É o fato que interrompe o fluxo da situação inicial da
narrativa, criando um problema ou obstáculo que deverá
ser resolvido. O Nó é o que dá origem ao conflito dramático
[...]. Ele evidencia que só há uma história a ser contada por
que uma crise se instalou em determinada situação exigindo
que se tente resolvê-la de modo a reequilibrar o que ela
desestabilizou [...];
Clímax – É o elemento que marca o auge do conflito dramático,
momento do tudo ou nada entre as forças contrárias que
agem e se defrontam na narrativa [...], engendrando e
desenvolvendo a história. Diferentemente do desfecho, o
clímax caracteriza um momento em que a expectativa em
relação à resolução do conflito central da narrativa ignora
qual das forças contrárias vencerá. O clímax, portanto,
suspende, mantendo por instantes em tensão máxima, a
história contada na narrativa;
Desfecho – É a resolução do conflito central da narrativa,
momento em que uma das forças contrárias vence e se afirma
sobre a sua oponente. Normalmente, liga-se à situação final
da narrativa.
FRANCO JUNIOR, Arnaldo. Operadores de leitura da narrativa. In: BONNICI,
Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana (orgs.). Teoria literária: abordagens históricas e
tendências contemporâneas. Maringá: Eduem, 2003, p. 42.
Texto II
SOZINHOS
Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo
depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava
mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar
aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca
mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos
em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do
seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim: Um
casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos,
os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o
outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela
diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
– Ronca.
– Não ronco.
– Ele diz que não ronca – comenta ela, impaciente, como se
falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente
visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o
almoço, deixa o jantar e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.
– Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer – diz
ela. E em seguida tem a ideia infeliz. – É o que eu vou fazer!
Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar
os seus roncos.
– Humrfm – diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare
de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. Às ideias não
podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a
vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado
com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro
comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare.
Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este
ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me
acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das
maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar
os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua
profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo.
Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a
cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas
em poucos minutos a velha também dorme. O gravador
fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba. Na manhã
seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se
alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
– Rarrá! – diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha
também ronca!
– Rarrá! – diz o velho, vingativo.
E, em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se
um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida.
Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio –
por causa dos roncos – não se distingue o que ela diz. Mas aos
poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um
diálogo sussurrado.
“Estão prontos?”
“Não, acho que ainda não...”
“Então, vamos voltar amanhã...”.
VERISSIMO, Luis Fernando. Sozinho. In.: Comédias para se ler na escola. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2001
Assinale a alternativa correta sobre os aspectos narrativos
empregados por Luís Fernando Veríssimo no texto
Sozinhos, presente na obra Comédias para se ler na escola
(use o texto I como apoio).