Existiam dois sóis. Eram dois astros muito poderosos, que
prejudicavam o mundo, ou seja, o planeta, pois os dois juntos
faziam muito calor. Certa vez os dois se desentenderam e
brigaram.
Na briga, o sol deu um soco nos olhos da lua. A lua disse ao sol: —
Como é que vou trabalhar agora? O sol disse: — Você ilumina o
mundo de noite e eu ilumino o dia. Por este motivo, o sol, com sua
luz muito quente, seca os rios e as plantas. E a lua derrama
lágrimas por estar com o olho machucado, molhando assim as
plantas. As gotas de sua lágrima quando caem vão recuperando os
rios onde estes secaram. À noite, desde então, temos a lua (Kysã),
que nos dá a escuridão necessária para o repouso, e, durante o dia,
o sol (Rã), que ilumina nossos dias e florestas. Até hoje, assim que
o sol se põe, a lua nasce. Desse modo, os dois nunca se encontram
para não brigarem novamente. Um vai complementando o outro.
Assim todas as coisas no mundo têm seu complemento, seu lado
par ou ímpar.
CARDOSO, Dorvalino Refej. Kanhgág Jykre Kar — filosofia e educação kanhgág e a
oralidade: uma abertura de caminhos. 2017. Faculdade de Educação, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.
No texto Kanhgág Jykre Kar