Leia o texto para responder à questão.
Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidade com a mesma rapidez com que me
esqueço dos sonhos. Começa a ser difícil saber se estou me
esquecendo de um sonho ou da realidade.
Acontece-me, por exemplo, assistir a um filme e, no
meio, descobrir que já o vi antes. Com os livros de ficção,
isso nunca me aconteceu, o que me leva a supor que a leitura implique uma mobilização mais profunda de certas áreas
do cérebro. Faz sentido, na medida em que ao lermos um
romance somos convidados a recriá-lo, imaginando o rosto
dos personagens, e uma larga parte dos cenários e das situações. Cada leitor rescreve o romance que está lendo.
O problema é que aquilo que me acontece com os filmes
também ocorre com as pessoas. Encontro com alguém num
casamento, começamos a conversar, e só quando a festa se
aproxima do fim é que o reconheço.
Pode ser que o problema não seja meu, e sim do cinema
que se faz hoje – e da atual humanidade. Talvez eu julgue
estar revendo um filme, e seja um outro; no entanto, os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes
do final eu já conheço o desfecho.
Para funcionar, da forma mais eficiente possível, um exército começa por uniformizar os seus soldados; ou seja, por lhes
retirar a individualidade. As nossas sociedades tecnológicas estão fazendo o mesmo a um nível mais íntimo e profundo. Acho
isso assustador.
Fico feliz quando encontro um filme (ou uma pessoa) capaz de me surpreender, como “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, que acompanha o cotidiano de um homem de meia-idade, Hirayama, responsável pela limpeza de banheiros
públicos em Tóquio. Hirayama cumpre a sua tarefa com extraordinário zelo e dedicação.
Na sua aparente simplicidade, Hirayama distingue-se de
quem o rodeia. Não é uniformizável. O faxineiro erudito de
Wim Wenders é um colecionador de pequenos espantos, de
fulgores e de momentos únicos. É um colecionador de vida.
Pessoas e personagens assim são inconfundíveis e inesquecíveis. Precisamos deles para travar a uniformização do mundo e ressuscitar a alegria e o espanto.
(José Eduardo Agualusa. A vida ambiciona o espanto. https://oglobo.globo.
com, 03.02.2024. Adaptado)