Texto CB1A2-II
O sofista e o ignorante ocupam mais o pensamento de
Platão que o mentiroso, e quando ele distingue entre o erro e a
mentira — quer dizer, entre “involuntário e voluntário” — é, de
modo significativo, mais duro em relação àqueles que
“chafurdam na ignorância de porcos” que em relação aos
mentirosos. Terá isso acontecido porque era ainda desconhecida a
mentira organizada, que domina a coisa pública, à diferença do
mentiroso privado que tenta a sua sorte por sua própria conta?
A mentira tradicional implicava apenas particulares e
nunca visava enganar literalmente toda a gente; dirigia-se ao
inimigo e só a ele queria enganar. Como os fatos se produzem
sempre num contexto, uma mentira particular — quer dizer, uma
falsificação que não se esforça por alterar todo o contexto — faz,
por assim dizer, um buraco no tecido dos fatos. Como todo o
historiador sabe, pode-se detectar uma mentira observando-se
incongruências, buracos, ou junturas dos espaços consertados.
Enquanto a textura no seu todo for conservada intacta, a mentira
mostrar-se-á imediatamente de modo espontâneo.
Se as mentiras políticas modernas são tão grandes que
requerem um completo rearranjo de toda a textura factual — o
fabrico de uma outra realidade, por assim dizer, na qual se
encaixam sem costuras, fendas nem fissuras, exatamente como os
fatos encaixavam no seu contexto original —, o que é que
impede estas histórias, imagens e não fatos novos de se tornarem
um substituto adequado da realidade e da factualidade?
Hannah Arendt. Verdade e política.
Internet: (com adaptações).