Mais um domingo de Dia das Mães
chegando, campanhas publicitárias caríssimas
de um lado, cartazes de "aqui está o presente
da sua mãe" na prateleira de Tupperware do
mercado do outro. A coluna de hoje é uma
carta aberta às mães.
Se você me perguntar qual é o trabalho
mais complexo do mundo, direi que é ser mãe.
A verdade é que não há desafios em uma
empresa que se comparem aos desafios da
maternidade. Ser mãe envolve se desdobrar
em desafios físicos, emocionais e,
principalmente, sociais. No Brasil, as mulheres
representam mais da metade da população (e
são mães da outra metade). A maternidade
deveria ser uma pauta essencial a ser
discutida no trabalho, na política e na
sociedade.
Apesar de este texto ser voltado para
mães, percebo a maternidade como uma
escolha livre para as mulheres. Ela não deve
ser encarada como o único caminho para nós.
Definitivamente, não estou entre aqueles que
acreditam que a mulher nasceu para ser mãe;
você nasceu e pode se tornar quem e o que
quiser.
Observo mulheres enfrentando o
dilema de quando ser mãe e como isso afetará
suas carreiras. Essa situação, além de
desafiadora, não deveria nos impor pressa ou
medo na realização de nossos sonhos, nem
nos obrigar a sacrificar outras áreas de nossas
vidas. Mas a gente sabe que a realidade não é
assim.
Sem querer romantizar, mas,
[como]
mulher e rodeada de outras, nós sabemos,
mais do que ninguém,
[como] fazer do limão
uma limonada. Apesar de o mundo não ser
feito para nós, ele é feito por nós. Diversos
estudos mostram que as habilidades
adquiridas na maternidade são valiosas no
ambiente de trabalho. A capacidade de
gerenciar tarefas, de tomar decisões e de
resolver problemas de forma criativa
é uma
competência adquirida ao longo dessa jornada
louca que é maternar.
E sim, para que isso aconteça, a gente
precisa de mulheres e de mulheres-mães no
poder para que licença maternidade não seja sinônimo de demissão quando esse período
acabar.
Que não precisemos passar por
sufoco para conseguir creches e pré-escolas
acessíveis e de qualidade, que as empresas
enxerguem a flexibilidade de horários como
algo normal na rotina de qualquer ser humano,
que salários justos e oportunidades sejam
iguais para homens e mulheres. Precisamos
de nós tomando decisões por nós, já que
sabemos onde o calo aperta.
Mas hoje vim falar sobre o respeito que
parece que as mulheres não recebem por suas
escolhas. Então, que, nos próximos dias das
mães — cientes de que não será logo —, a
gente enxergue a verdadeira contribuição
delas para o mundo, que a maternidade não
tenha gosto de culpa e muito menos de fim do
mundo. Que a maternidade seja celebrada por
quem decidiu vivenciá-la e respeitada por
quem não quis. No final, sempre somos nós
por nós.
FONTES, Ana. A maternidade é para mim? Folha de
São Paulo, 10 de maio de 2024. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/anafontes/2024/05/a-maternidade-e-para-mim.shtml.
Acesso em: 11 mai. 2024. Adaptado.