Observe o seguinte capítulo do romance Dom Casmurro, de
Machado de Assis:
“Pádua era empregado em repartição dependente do ministério
da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a
vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada
como a nossa, posto que menor, era propriedade dele.
Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de
loteria, dez contos de réis. A primeira ideia do Pádua, quando lhe
saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adereço de
brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua de família,
mandar vir da Europa alguns pássaros, etc.; mas a mulher, esta
D. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa, em pé,
falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça,
os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor
era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir às
moléstias grandes. Pádua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos
conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxílio. Nem
foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a
salvar a vida do Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de
ir ao Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou
por especial designação, ficou substituindo o administrador com
os respectivos honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe
certa vertigem; era antes dos dez contos. Não se contentou de
reformar a roupa e a copa, atirou-se às despesas supérfluas, deu
joias à mulher, nos dias de festa matava um leitão, era visto em
teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dois
meses na suposição de uma eterna interinidade”.
Sobre a esquematização do tempo nesse fragmento narrativo, é
correto afirmar que: