TEXTO 1 – ANTES QUE A FONTE SEQUE
José Carlos Tórtima, O Globo, 04/10/2014
Na deslumbrada primeira visão da nossa terra, Pero Vaz de
Caminha, o empolgado escrivão da frota de Cabral, não conteria a
euforia ao anunciar, em sua célebre epístola ao rei Dom Manuel,
que as águas da nova colônia eram não só muitas, mas “infindas”.
Só não imaginava Caminha que com sua bela carta de
apresentação da ambicionada Índia Ocidental aos nossos
ancestrais lusitanos poderia estar lançando as sementes da
arraigada e onipresente cultura de esbanjamento do precioso
líquido e do mito de sua inesgotabilidade. Cultura esta que até
hoje se faz presente nas cenas de desperdício explícito nas
cidades e no campo. E também na timidez de políticas públicas
direcionadas à preservação e ao bom uso das reservas do
mineral.
TEXTO 2 - LAR DO DESPERDÍCIO
De acordo com as Nações Unidas, crianças nascidas no mundo
desenvolvido consomem de 30 a 50 vezes mais água que as dos
países pobres. Mas as camadas mais ricas da população brasileira
têm índices de desperdício semelhantes, associados a hábitos
como longos banhos ou lavagem de quintais, calçadas e carros
com mangueiras.
O banheiro é onde há mais desperdício. A simples descarga de
um vaso sanitário pode gastar até 30 litros de água, dependendo
da tecnologia adotada. Uma das mais econômicas consiste numa
caixa d'água com capacidade para apenas seis litros, acoplada ao
vaso sanitário. Sua vantagem é tanta que a prefeitura da Cidade
do México lançou um programa de conservação hídrica que
substituiu 350 mil vasos por modelos mais econômicos. As
substituições reduziram de tal forma o consumo que seria
possível abastecer 250 mil pessoas a mais. No entanto, muitas
casas no Brasil têm descargas embutidas na parede, que costuma
ter um altíssimo nível de consumo. O ideal é substituí-las por
outros modelos.
O banho é outro problema. Quem opta por uma ducha gasta
até 3 vezes mais do que quem usa um chuveiro convencional. São
gastos, em média, 30 litros a cada cinco minutos de banho. O
consumidor - doméstico, industrial ou agrícola - não é o único
esbanjador. De acordo com a Agência Nacional de Águas, cerca
de 40% da água captada e tratada para distribuição se perde no
caminho até as torneiras, devido à falta de manutenção das
redes, à falta de gestão adequada do recurso e ao roubo.
Esse desperdício não é uma exclusividade nacional. Perdas
acima de 30% são registradas em inúmeros países. Há estimativas
de que as perdas registradas na Cidade do México poderiam
abastecer a cidade de Roma tranquilamente. (Ambientebrasil,
outubro de 2014)
TEXTO 3 – QUANTO FALTA PARA O DESASTRE?
Verão de 2015. As filas para pegar água se espalham por vários bairros. Famílias carregam baldes e aguardam a chegada dos caminhões-pipa. Nos canos e nas torneiras, nem uma gota. O rodízio no abastecimento força lugares com grandes aglomerações, como shopping centers e faculdades, a fechar. As chuvas abundantes da estação não vieram, as obras em andamento tardarão a ter efeito e o desperdício continuou alto. Por isso, São Paulo e várias cidades vizinhas, que formam a maior região metropolitana do país, entram na mais grave crise de falta d'água da história. (Época, 16/06/2014)
O segmento do texto 3 que retoma o tema dos dois textos anteriores (textos 1 e 2) é: