Ainda no início da pandemia, dois artigos sobre o novo coronavírus publicados em respeitadas revistas
científicas tiveram amplo impacto e repercussão. O primeiro, divulgado em 1º de maio de 2020 na New England
Journal of Medicine, avaliou os efeitos de alguns medicamentos para doenças cardíacas em pacientes infectados
com o Sars-CoV-2. O outro, publicado em 22 de maio na The Lancet, sugeria que a hidroxicloroquina, além de
não ser eficaz contra a Covid-19, aumentava o risco de mortalidade por problemas cardíacos. Os dois estudos
foram retratados em 5 de junho por suspeita de fraude da empresa que forneceu os dados que embasavam suas
conclusões – e a impossibilidade de assegurar a veracidade dessas informações tornou inviável a comprovação
dos resultados. Isso deveria ter colocado um fim nas trajetórias científicas desses artigos, mas não foi o que
aconteceu. Mesmo anulados, eles continuaram sendo citados na literatura especializada como se fossem válidos,
segundo levantamento feito por pesquisadores da Austrália e Suécia.
Com base em dados da plataforma Retraction Watch, que rastreia trabalhos científicos cancelados por erros
ou má conduta, foram analisados 212 artigos sobre a Covid-19 retratados até janeiro de 2022. Tais estudos haviam
recebido 1036 citações, 80% delas feitas após terem sido invalidados. Além disso, 86% não sinalizavam que eles
tinham sido retratados, difundindo a falsa ideia de que ainda eram considerados válidos pela comunidade científica.
O descuido está longe de ser incomum. Nos últimos anos, vários estudos têm chamado a atenção para
esse fenômeno que afeta a integridade da produção científica.
ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Artigos zumbis. Pesquisa FAPESP, São Paulo, FAPESP. Ano 23, n. 322,
Dez. 2022. p. 33.
A expressão negritada “O descuido”