“Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo
tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a
toda arte e a toda natureza? Boa razão é também essa. O estilo
há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o
pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o
semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte.
Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o
estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi
ele? O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o Céu.
Suposto que o Céu é pregador, deve ter sermões e deve ter
palavras. E quais são estes sermões e estas palavras do Céu? As
palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem,
a harmonia e o curso delas. O pregar há de ser como quem
semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Não fez Deus o céu
em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em
xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de
estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite?
Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de
uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que
não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas
hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?
Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do
Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não
pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de
Deus, mas não pregam a Palavra de Deus”.
O texto acima é um excerto do famoso “Sermão da Sexagésima”,
do Padre Antônio Vieira, orador sacro do século XVII, pertencente
as literaturas portuguesa e brasileira. Nesse momento do
sermão, o orador questiona se o estilo da época é uma das
causas da dificuldade de os sermões convencerem religiosamente
o público.
Sobre o texto e suas relações literárias, assinale a afirmativa
correta.