Com a nova ortografia da língua portuguesa, dei um triste adeus aos tremas e a algumas palavras que levavam acento. Vou sentir falta da velha ortografia, uma falta nada nostálgica, mas visual.
O voo, sem o circunflexo, parece que ficou mais raso e pesado; lembra o voo de um inhambu, essa ave grande, pesada e desajeitada que, para sair do chão, bate asas com estardalhaço, como se fosse uma bandeira ao vento.
E o que dizer da nova “idéia”? Sem o acento agudo, tornou-se grave, fechada e sugere uma pronúncia mais lusitana. Lamento também a nudez da palavra jiboia, que perdeu o acento espetado no centro do corpo.
E os tremas, esses dois pontinhos suspensos, olhinhos fixos que davam tanta graça e elegância à letra u?
Tantos corações que “agüentaram” o tranco por toda uma vida agora vão ter que suportar emoções, dissabores e adversidades sem o trema.
(HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. S. Paulo: Companhia de Bolso, 2013, p. 190)
Considere as seguintes afirmativas sobre o texto de Milton Hatoum:
1. O autor utiliza as aspas para indicar o uso da ortografia antiga em algumas palavras.
2. Nesse trecho, Hatoum explica por que não pretende adotar em seus textos as novas regras ortográficas do português.
3. Na crônica, o escritor explora o valor afetivo que ele atribui aos acentos na grafia de algumas palavras.
Assinale a alternativa correta.