“UNABOMBER” É UMA DAS VÍTIMAS DA MÍDIA A sociedade industrial moderna impôs
condições insuportáveis ao ser humano: densidade
demográfica excessiva, separação entre o homem e
a natureza, rapidez extrema das transformações
sociais.
Os conservadores se queixam da
decadência dos valores tradicionais, mas apoiam
entusiasticamente o progresso tecnológico e o
crescimento econômico.
Nunca lhes ocorre que não se pode operar
transformações drásticas na tecnologia e na
economia de uma sociedade sem provocar
transformações velozes em outros aspectos da
sociedade também, e que tais transformações levam
inevitavelmente à ruptura dos valores tradicionais.
Os esquerdistas se identificam
profundamente com os problemas de grupos que
transmitem imagens de fracos e derrotados; é por
masoquismo que se identificam com tais problemas.
Não escrevi os três parágrafos acima.
Reproduzo trechos do manifesto feito pelo terrorista
Unabomber, publicado pelo "Washington Post" nesta
semana.
Unabomber já matou 3 pessoas, por meio
de cartas-bomba. Age desde 1978. Exigiu que o
"Washington Post" e o "New York Times" publicassem
um manifesto de sua autoria (um caderno especial
de oito páginas), comprometendo-se, em troca, a
não matar mais ninguém.
Os dois jornais cederam à chantagem,
obedecendo aliás a instruções do governo americano.
Ambos racharam os gastos com a publicação do
manifesto, que por razões técnicas só pôde ser
reproduzido integralmente pelo "Washington Post".
O caso é espantoso sob vários aspectos,
mas o mais espantoso de todos é o fato de que as
ideias de Unabomber, pelo menos os trechos
traduzidos pela Folha na quarta-feira, não têm nada
de maluco ou de demente.
São, ao contrário, de grande sensatez.
Um terrorista sensato: só isso é o que faltava para a
loucura mundial.
Criticar o avanço tecnológico, os
extremos da densidade demográfica, a ingenuidade
dos conservadores, como nos trechos que reproduzi
no começo do artigo, pode ser uma atitude polêmica,
pode suscitar discussões ou dúvidas, mas não é
sintoma paranoico nem loucura.
Unabomber vê com preocupação os
avanços da tecnologia. Nota que a sociedade
industrial é patológica, doente. Critica os
conservadores com inteligência. Desconfia,
nietzscheanamente, dos motivos ocultos atrás do
esquerdismo.
Não que eu concorde com o que ele diz.
Mas só o fato de ele ter produzido um texto com o
qual se possa debater já é admirável.
Unabomber se revela um discípulo de
Rousseau, de Nietzsche, de Thoreau; nota o
desajuste entre natureza e sociedade. Nota o que
talvez seja um dos problemas mais graves da
sociedade contemporânea: o avanço tecnológico,
destinado a dar mais conforto à humanidade, termina
tornando a vida ainda mais insuportável.
Alguns exemplos. Um carro foi feito para
levar as pessoas mais depressa de um ponto a outro
da cidade. É uma grande invenção. Mas por isso
mesmo todo mundo compra um carro, e termina
engarrafado. Tudo é feito para economizar tempo.
Teoricamente, um computador eliminaria as filas de
bancos. Mas acontece que um computador, quando
quebra, impõe o caos e filas quilométricas.
Mais grave: os esforços no sentido de
melhorar a tecnologia, de ganhar tempo acabam por
ocupar a mão-de-obra disponível de forma frenética.
O executivo ganha tempo ao falar no
telefone celular, ao mexer em seu computador – e
vive se queixando de falta de tempo. Seu lazer é
cronometrado: nada melhor, então, que entrar no drive-through do McDonald's, com o celular em
punho, para "ganhar tempo". Só que ele não "ganha
tempo", numa sociedade em que o tempo está
sempre se acelerando. Ele apenas se adapta às novas
exigências da eficácia moderna.
A tecnologia tinha tudo para trazer
felicidade à espécie humana, mas o ambiente social
nada mais fez senão frustrar essa utopia.
O terrorista Unabomber está certo em seu
descontentamento. Mas é também um louco e um
assassino. Como entender essa contradição?
Tenho a seguinte hipótese. O grande
problema de Unabomber não é a sociedade
tecnológica, os conservadores ou a esquerda. Acho
que ele sofre de solidão política. É uma vítima dos
meios de comunicação. Trata-se, talvez, de um caso
radicalizado daquelas pessoas que mandam cartas
para jornais. Falei delas há pouco tempo. Criticam ou
adoram, insultam ou enaltecem os colunistas e
comentaristas; psicologicamente, encontram nos
meios de comunicação um reflexo ou um antirreflexo
de tudo o que pensam.
É um novo tipo de excluído: não o
operário destituído dos meios de produção, mas o
pensador rejeitado pelos meios de comunicação. A
mídia contemporânea tem uma forma, um ambiente
de totalitários.
Minha modesta opinião, assim como a de
Arnaldo Jabor, Antônio Callado ou Fernando Gabeira,
assumem involuntariamente um caráter totalitário,
profético, definitivo, o que é irritante ou insultuoso
para o leitor comum.
Unabomber radicaliza essa ideia do leitor
comum. É capaz de matar, pelo simples fato de que
não dizem o que ele gostaria de dizer. Mas sua
mensagem ideológica é menos importante do que a
vontade de ser criminoso e chantagista. Suas ideias
são até certo ponto corretas, mas ao mesmo tempo
são sintomas de sua frustração.
(Texto de Marcelo Coelho. Adaptado do Original. Disponível
emhttps://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/9/22/ilustrad
a/23.html).