Leia trecho do conto “A condessa descalça” para responder
à questão.
A moça deixou o Brasil e hoje mora em Bruxelas, graças a uma bolsa de estudos. A moça vive modestamente na
pensão de uma grega chamada Papacapopoulos, ou coisa
parecida. Um dia a senhoria lhe disse que era um absurdo
ela estar na Europa e não viajar: não ter ainda conhecido
Londres, por exemplo, que era tão perto. Então a moça economizou um dinheirinho e comprou a passagem: a Papacapopoulos lhe recomendou a filha, que vivia lá.
E a moça foi a Londres, toda contente. Chegou à noite,
debaixo de chuva, depois de uma viagem de navio e outra de
trem. Molhou-se da estação até o táxi. Já no hotel, deixou os
sapatos encharcados junto do aquecedor, deitou-se e dormiu.
Pela manhã, verificou que os sapatos estavam secos,
mas estalando de tão secos: assados. Mal lhe entravam no
pé. Não tendo outros, calçou-se assim mesmo, depois de
muito esforço, e saiu pelas ruas, a perna dura, dando patadas no chão, à procura de uma sapataria. Encontrou uma,
explicou-se como pôde, mostrando nos pés os sapatos esturricados. O homem os olhava, assombrado. Quando se dispôs
a atendê-la verificou que não tinha o número que ela calçava:
33. Recomendou-lhe outra sapataria.
Esta outra também não tinha – e assim, sucessivamente,
ela foi a sete sapatarias londrinas, sem resultado. Já se
desesperava, reduzida à perspectiva de condessa descalça,
única coisa que Londres lhe poderia oferecer. Acabou voltando para o hotel. Tinha os pés empolados, cheios de bolhas
e de calos. Resolveu mergulhar os sapatos na banheira para
ver se, molhados, recuperavam sua condição anterior.
(Fernando Sabino.
A condessa descalça. https://cronicabrasileira.org.br. Adaptado)