Língua nativa influencia na conectividade do
cérebro, conclui estudo
Cientistas do Instituto Max Planck de Ciências
Humanas Cognitivas e do Cérebro, na Alemanha,
encontraram evidências de que o idioma que
falamos molda a conectividade em nosso
cérebro, possivelmente influenciando a maneira
como pensamos. O trabalho será publicado na
edição de abril da revista científica NeuroImage.
Com a ajuda de tomografias de ressonância
magnética, os estudiosos examinaram
profundamente cérebros de falantes nativos de
alemão e de árabe, e descobriram diferenças na
fiação das regiões cerebrais associadas à
linguagem.
Xuehu Wei, que é aluna de doutorado na equipe
de pesquisa de Alfred Anwander e Angela
Friederici no Instituto Max Planck, comparou
varreduras cerebrais de 94 falantes nativos dos
idiomas escolhidos, todos com idades entre 18 e
34 anos. As imagens de alta resolução não apenas
mostram a anatomia do cérebro, mas também
permitem derivar a conectividade entre as áreas
cerebrais, usando uma técnica chamada imagem
ponderada por difusão.
Os dados mostraram que as conexões de axônios
da substância branca da rede de linguagem se
adaptam às demandas e dificuldades de
processamento da língua materna. “Os falantes
nativos de árabe mostraram uma conectividade
mais forte entre os hemisférios esquerdo e direito
do que os falantes nativos de alemão”, explica
Alfred Anwander, último autor do estudo, em
comunicado. “Esse fortalecimento também foi
encontrado entre as regiões semânticas da
linguagem e pode estar relacionado ao
processamento semântico e fonológico
relativamente complexo do árabe.”
Ainda de acordo com a pesquisa, os falantes
nativos de alemão mostraram uma conectividade
mais forte na rede de idiomas do hemisfério esquerdo. Os autores argumentam que suas
descobertas podem estar relacionadas ao
complexo processamento sintático do alemão,
devido à ordem livre das palavras e à maior
distância de dependência dos elementos da frase.
“A conectividade cerebral é modulada pela
aprendizagem e pelo ambiente durante a infância,
o que influencia o processamento e o raciocínio
cognitivo no cérebro adulto. Nosso estudo
fornece novas informações sobre como o cérebro
se adapta às demandas cognitivas, ou seja, o
conectoma estrutural da linguagem é moldado
pela língua materna”, resume Anwander.
Esse é um dos primeiros estudos a documentar as
diferenças entre os cérebros de pessoas que
cresceram com diferentes idiomas nativos e pode
dar pistas para entender as diferenças de
processamento intercultural no cérebro. Em uma
próxima análise, a equipe pretende investigar
mudanças estruturais longitudinais no cérebro de
adultos de língua árabe à medida que aprendem
alemão ao longo de seis meses.
Revista Superinteressante. Adaptado.
Disponível em <https://revistagalileu.globo.com/sociedade/com portamento/noticia/2023/03/lingua-nativainfluencia-na-conectividade-do-cerebro-concluiestudo.ghtml>