01 Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saí de casa para 02 a escola numa manhã fria de inverno. Chegando ___ 03 portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava 04 levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou 05 qual. “O moletom amarelo”, respondi. Era mentira. 06 Não estava levando agasalho nenhum, mas estava 07 com pressa, não queria me atrasar. 08 Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal 09 moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da 10 casa, e eu imaginava _ _ _ _. Gelei. À noite, meu pai 11 chegou de cara amarrada. Ao me ver, tirou de sua 12 pasta o moletom e me disse: “Eu não me importo que 13 tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, 14 ninguém mente. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi 15 apenas um episódio memorável de algo que foi o 16 leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um 17 obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, 18 honestidade, código de conduta, escala de valores, 19 menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, 20 em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e 21 exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu 22 certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto 23 deslocado. 24 Até hoje chego pontualmente aos meus compro- 25 missos e, na maioria das vezes, fico esperando por 26 interlocutores que se atrasam e nem se desculpam 27 (quinze minutos parece constituir uma “margem de 28 erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador 29 de serviço promete entregar o trabalho em uma data, 30 apenas para ficar exasperado pelo seu atraso. Fico 31 revoltado sempre que pego um táxi em uma cidade 32 que não conheço e o motorista tenta me roubar. 33 Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, 34 que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. 35 Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao 36 ler o noticiário e saber que, entre os governantes, 37 viceja um grupo de imorais que roubam com criativi- 38 dade e desfaçatez. 39 Sócrates, via Platão, defende que o homem que 40 pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, 41 pois está em conflito interno, em desarmonia consigo 42 mesmo, perenemente acossado e paralisado por 43 medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma 44 existência desprezível, para sempre amarrado ___ 45 algo (sua própria consciência!) onisciente que o 46 condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, 47 nesse caso acredito que ele foi excessivamente 48 otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais 49 perto da compreensão da perversidade humana ao 50 notar que esse desconforto interior do “pecador” 51 pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a 52 sua consciência, que na verdade não ocorre com a 53 frequência desejada por Sócrates. Para aqueles que 54 cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, 55 Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por 56 si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si 57 próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação 58 era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo 59 corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica 60 para os seus atos, algo que justifique o _ _ _ _ de uma 61 determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas 62 não a ele, pelo menos não naquele momento em que 63 está cometendo o seu delito. 64 Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das 65 pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo 66 tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem 67 dramas de consciência, se travassem um diálogo 68 verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam 69 optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. 70 Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud 71 chamou de superego: seguimos um comportamento 72 moral _ _ _ _ ele nos foi inculcado por nossos pais, e 73 renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno. 74 Na minha visão, só existem, assim, dois cenários 75 em que é objetivamente melhor ser ético do que não. 76 O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita 77 que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. 78 Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma 79 sociedade ética em que os desvios de comportamento 80 são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções 81 penais, quer na forma de ostracismo social. O que 82 não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse 83 ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é 84 um país sério. 85 Assim é que, criando filhos brasileiros morando no 86 Brasil, estou ___ voltas com um deprimente dilema: 87 acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho 88 para a vida. Esta é a nossa responsabilidade: dar a 89 nossos filhos os instrumentos para que naveguem, 90 com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo 91 real. E acredito que a ética e a honestidade são valores 92 axiomáticos. Eis aí o dilema: será que o melhor que 93 poderia fazer para preparar meus filhos para viver no 94 Brasil seria não os aprisionar na cela da consciência, 95 do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a 96 integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a 97 ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, 98 como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas 99 questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar 100 com atrasos, não insistir para que não colem na escola, 101 não instruir para que devolvam o troco recebido a 102 mais... 103 O fato de pensar ___ respeito do assunto e de viver 104 em um país em que existe um dilema entre o ensino 105 da ética e o bom exercício da paternidade já é causa 106 para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus 107 filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não 108 porque ache que eles serão mais felizes assim – pelo 109 contrário –, nem porque acredite que, no fim, o bem 110 compensa. Mas _ _ _ _, em primeiro lugar, não conse- 111 guiria conviver comigo mesmo – e com a memória de 112 meu pai – se criasse meus filhos para serem pessoas 113 do tipo que ele me ensinou a desprezar. Além disso, 114 porque acredito que sociedades e culturas mudam. 115 Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram 116 antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um 117 dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a 118 retidão que espero inculcar em meus filhos há de ser 119 uma vantagem (não um fardo). Oxalá.
Adaptado de: Devo educar meus filhos para serem éticos? http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/gustavo-ioschpe-devo-educar-meus-filhos-para-serem-eticos Acessado em 21/10/2013.
Assinale as afirmativas abaixo com V (verdadeiro) ou F (falso) em relação ao uso da pontuação no texto.
( ) A vírgula da última frase do segundo parágrafo é justificada porque separa duas orações em sequência. ( ) As vírgulas da primeira frase do terceiro parágrafo estão empregadas para isolar um elemento intercalado. ( ) O uso de vírgula depois de mole (l. 33) é facultativo. ( ) As vírgulas da última frase do penúltimo parágrafo são empregadas para enumeração de elementos.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
Esta questão foi aplicada no ano de 2013 pela banca FAURGS no concurso para TJ-RS. A questão aborda conhecimentos da disciplina de Língua Portuguesa, especificamente sobre Pontuação, Emprego da Vírgula.
Esta é uma questão de múltipla escolha com 5 alternativas. Teste seus conhecimentos e selecione a resposta correta.