Leia o excerto a seguir.
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu
dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever,
e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que
inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três
coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto.
Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um
minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única
salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der
amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o
mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me
chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E
não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as
outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado,
enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se
vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para
escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde
os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em
meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se
fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz.
Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo
passa é o que eu chamo de viver e escrever.”
LISPECTOR, Clarice. As três experiências. In: A descoberta do mundo.
Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
No excerto, observa-se o predomínio da seguinte função da
linguagem