O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
" ... Esse nome de Pasárgada, que significa 'campo dos
persas' ou 'tesouro dos persas', suscitou na minha
imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias
[...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na
minha casa da Rua do Curvelo (Rio de Janeiro), num
momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação
de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por
motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente
esse
grito
estapafúrdio:
'Vou-me embora p'ra
Pasárgada!' Senti na redondilha a primeira célula de um
poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei [...]. Alguns
anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e
tédio, me ocorreu o mesmo desabafo de evasão da 'vida
besta'. Desta vez o poema saiu sem esforço como se já
estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema
porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; e,
também, porque parece que nele soube transmitir a
tantas outras pessoas a visão e promessa da minha
adolescência, essa Pasárgada onde podemos viver pelo
sonho o que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou
arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma
casa, mas reconstruí e 'não como forma imperfeita neste
mundo de aparências', uma cidade ilustre, que hoje não
é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a minha "Pasárgada".
(Manuel Bandeira. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro. Nova
Fronteira; Brasília, INL, 1984)