Como será que seus avós tinham chegado àquele lote?
Herdaram dos antepassados? Foi benesse da carola
abastada, que depois doou tudo à Igreja? Como saber, se a
memória se apaga, se as pessoas se esquecem com a
mesma urgência com que recordam ser preciso viver? Os
que vieram antes, muito antes dos que aqui estavam, foram
embora de que maneira? Jamais saberia a história dessa
terra, dos seus, jamais poderia contar com o sentido de uma
história antiga, remota, para justificar a vida presente. Luzia
compreendia o hoje e um pouco mais além, mas não era
capaz de avançar o suficiente para saber de que era feito seu
espírito. Se sua história se resumia às lembranças de sua
família, em seu sangue, mal sabia, corria um rio imemorial.
VIEIRA JÚNIOR, Itamar. Salvar o fogo. São Paulo: Todavia, 2023.
No romance “Salvar o fogo”, Itamar Vieira Júnior desenvolve
uma narrativa com intenso apelo aos conflitos do campo e à
violência colonial. Nesse sentido, a terra dita o
desenvolvimento dos acontecimentos na estória, e sua
posse é atravessada por diversos mecanismos de poder. No
trecho destacado, a crítica tecida pelo autor revela