Elucubrações sobre o cheiro
Vladimir Souza Carvalho | Membro das
Academias Sergipana e Itabaianense de
Letras | 18/05/2024
Cheiro era sinônimo de perfume. Uma
pessoa circulava entre os padrinhos e parentes
dos noivos com um frasco na mão a oferecêlo. Quem quer cheiro? Era assim, como se
fosse a oferta de um copo de água. Todos
vinham de algum povoado, fazendo rancho em
imóvel voltado para o oitão lá de casa. Eu,
menino, e, ademais, curioso, via, da calçada, a
fartura de pessoas a futricar minha atenção. E
lá ficava a encher os olhos com sala e corredor
povoados, todos arrumados, não me
lembrando se os homens trajavam ternos ou
só camisa de manga comprida. Noivo, de
terno, noiva, de vestido branco, tenho certeza.
Depois, enfileirados, devidamente
encharcados de cheiro, e, então, cheirosos, os
noivos à frente, sem a montaria, na perna,
então, rumavam para a Igreja, ou para o
cartório do registro civil, em prédios vizinhos,
para sacramentar o casamento.
Os que não tinham casa para se
arranchar, usavam o cavalo, a caravana
impoluta do povoado até a cidade, em ritmo
lento, a noiva mal acomodada na montaria, o
cuidado para não sujar o vestido, a alegria do
casamento compensava o sacrifício da
viagem, o cartório ou a Igreja a aguardá-los, o
vestido branco denunciando se cuidar de
casamento, dispensando qualquer estandarte
a anunciá-lo. Do que me lembro, no meio da
semana, retornando a caravana depois, onde,
acredito, a festa ocorria fartamente, mesclada
de bebida e de salgadinhos, o casamento se
tornando motivo para uma comemoração, por
mais pobres que fossem os noivos ou os pais,
se fazia obrigatória, a despeito de qualquer
norma. E o cheiro, onde aparece cheiro? É
exigir demais, já que nunca fiz parte da
caravana nem participei da festa. Acho que era
na vinda para a cidade.
Cheiro também carrega o significado de
beijo, e como tal desponta, não de namorados,
que é beijo de boca com boca, com saliva e
tudo, beijador e beijado num caloroso abraço,
eletricidade passando por todo o corpo, nada
carregando de cheiro, que é sinônimo de
carinho, fraternalmente dado nas papadas
e/ou na testa, a boca sempre fazendo um bico
em harmonia com o nariz, porque foi assim que
cheiro muito recebi quando era menino, e, hoje, apenas um fato que ficou lá trás, onde a
memória não consegue ressuscitar as gentis
senhoras que me cheiravam. Fossem vivas,
diante da paisagem que a idade me reveste,
por certo, não se atreveriam a tanto.
CARVALHO, Vladimir Souza. Elucubrações sobre o
cheiro. Diário de Pernambuco, 18 de maio de 2024.
Disponível em:
https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/opiniao/
2024/05/elucubracoes-sobre-o-cheiro.html. Acesso em:
23 mai. 2024.