1º Num recente debate com estudantes de
Letras da USP, o crítico de arte e ficcionista Rodrigo
Naves pôs lado a lado, numa boutade cheia de razão,
Pelé e Machado de Assis. De fato, se a formação da
literatura brasileira desemboca em Machado, a do
futebol brasileiro desemboca em Pelé. Quem ousaria
compará-los? Quem dirá quem é superior? Driblarei
a questão indo direto ao ponto: como foram
possíveis um ao outro? Ambos nos dão a impressão
de render as condições que os geraram, como se
pairassem acima delas. Render, aqui, significa
submetê-las (a pobreza, o atraso, a situação
periférica do país) levando-as as suas consequências
máximas, e superando-as sem negá-las. A
discrepância aparentemente berrante entre o escritor
e o jogador de futebol contém nela mesma o xis do
problema. Ambos são necessários para que se
formule a trama de um país mal letrado e
exorbitante, cujo destino passa pelas reversões entre
a “alta" e a “baixa" cultura, pelo confronto e pelo
contraponto das raças, pela palavra e pelo corpo, e
cuja formação não poderia se dar apenas na
literatura: o ser brasileiro pede minimamente – para
se expor em sua extensão e intensidade – a literatura,
o futebol e a música popular.
2º Comparo Machado de Assis a Pelé (...) não
porque sejam semelhantes como personalidades e
estilos, mas porque ______ aquela similitude dos
opostos complementares: além de todas as
diferenças óbvias implicadas nos campos da
literatura e do futebol, o foco de um ilumina o cerne
da nossa incapacidade de escapar ao retorno vicioso
do mesmo, e o do outro a nossa capacidade de
invenção lúdica e a extraordinária potência da nossa
promessa de felicidade. O que os ______ é a
afirmação, na negatividade e na possibilidade, da
consciência fulminante e da intuição em ato, assim
como a capacidade de fazer o país saltar aos nossos
olhos como melhor do que ele mesmo.
3º Mas melhor do que ele mesmo supõe
necessariamente um pior do que ele mesmo.
Machado de Assis radiografou de maneira
implacável o nosso atraso como um descortino
fulgurante, cujo avanço não paramos de descobrir. E
só pôde fazê-lo da maneira que o fez, acredito eu,
porque viu por dentro a sociedade de ponta a ponta
– como condição entranhada em sua trajetória de
vida – e porque deu uma poderosa forma nova .......
tradição literária acumulada. Mais do que atraso, no
entanto, flagrou a paralisia congênita da alma
nacional, se quisermos chamar desse modo o
renitente sistema auto-ilusão compartilhada que
refuga os golpes do real ...... custa de expedientes de acomodação e escape que _______ ileso o estado de
coisas, mesmo quando insustentável.
4º O futebol brasileiro é, por sua vez, o saldo
ambivalente desse déficit, seu veneno e seu remédio
prodigioso. Seria mais um mecanismo de fuga entre
outros se não fosse, ao mesmo tempo, o campo em
que a experiência brasileira encontrou uma das vias
privilegiadas para atravessar o seu avesso e tocar as
fraturas traumáticas que nos constituem e
permanecem em nós como um atoleiro. Ele é a
confirmação do paradoxo da escravidão brasileira
como um mal nunca superado e, ao mesmo tempo,
como um bem valioso em nossa existência, não pela
escravidão enquanto tal – o que é óbvio e gritante
aos céus –, mas pela amplitude de humanidade que
desvelou. Por isso mesmo, ele figura como redenção
e como falha irresolvida, como remédio irremediável
em que pendulamos, na incapacidade de estender os
seus dons vitoriosos e potentes ....... outras áreas da
vida nacional – em especial à educação e à política,
com implicações para todo o resto. E a mesma
cegueira faz com que se queira gozar os seus efeitos
como se fossem dados de presente e desde sempre e
que se recuse ....... reconhecer o custo permanente da
sua construção.
(WISNIK, José Miguel.
Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008).