Texto III
Afinal, os homens nascem iguais, apenas sem uma
definição completa da natureza.
Em Rousseau, por exemplo, com a noção do “bom
selvagem”, essa ideia estará absolutamente presente.
A alteridade desses “novos homens” transformada em
modelo lógico se contrapunha à experiência ocidental. Como
concluía Rousseau sobre a origem da desigualdade entre os
homens, “se há uma bondade original da natureza humana, a
evolução social corrompeu-a”.
O famoso filósofo da Ilustração encontrava um modelo
ideal nesse “outro” tão distante do “nós, ocidentais”, e o elegia
como moralmente superior. No entanto, ao conformar esse
quadro antitético, Rousseau de certa forma se afastava da
Ilustração, já que refletia sobre um progresso às avessas.
Mas, se a visão idílica de Rousseau foi a mais fecunda, é
impossível deixar de falar das vertentes mais negativas de
interpretação. As imagens que detratam o Novo Mundo se
intensificaram, simetricamente correspondentes ao maior
conhecimento e colonização desses novos territórios. É o
momento em que se passa da projeção da inocência à inata
maldade do selvagem.
Esse debate — que opunha o modelo igualitário da
Ilustração às doutrinas raciais — faz parte, no entanto, de um
problema mais remoto, sobre as origens da humanidade.
De um lado, a visão monogenista, dominante até meados
do século XIX; de outro, a partir de então, a hipótese poligenista,
que se transformava em uma alternativa plausível. Partiam os
seus autores da crença na existência de vários centros de criação,
que corresponderiam, por sua vez, às diferenças raciais
observadas.
Lilia Moritz Schwarcz. O espetáculo das raças.
São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 45-48 (com adaptações).