Texto CG2A1
Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem
ser divididos em dois tipos: aqueles que não seriam prazeres
propriamente ditos, a não ser que sejam precedidos pelo desejo; e
aqueles que são prazeres em si e dispensam qualquer preparação.
Podemos denominar esses dois tipos, respectivamente, de
prazeres-necessidade e prazeres de apreciação.
Um exemplo do primeiro tipo seria um gole de água. Isso
seria considerado um prazer se você estivesse com sede, e um
grande prazer se estivesse sedento. Contudo, é bem provável que
não haja ninguém no mundo, exceto em obediência à sede ou às
ordens do médico, que tenha enchido um copo de água para
beber apenas pelo prazer que isso lhe dá. Um exemplo
do segundo tipo seriam os prazeres inesperados e surpreendentes
do olfato — o suave aroma de campos floridos ou de plantações
de ervilhas que surgem em sua caminhada matinal pelo campo.
Antes disso, você não tinha necessidade de nada: estava
completamente satisfeito. O prazer desses perfumes não foi
solicitado; pelo contrário, foi uma dádiva adicional.
A pessoa que estava sedenta e acabou de beber uma
grande quantidade de água poderá dizer: “poxa vida, era isso o
que eu queria”. A pessoa que passa pela plantação de ervilhas em
sua caminhada matinal está mais propensa a dizer: “este perfume
é maravilhoso”. Após o primeiro gole de um famoso vinho tinto,
o especialista poderá dizer: “este é um grande vinho”. Quando
prazeres-necessidade estão em evidência, tendemos a fazer
afirmações a respeito de nós mesmos no tempo passado; quando
prazeres de apreciação estão em evidência, inclinamo-nos a fazer
afirmações sobre o objeto no tempo presente. Os mais inocentes
e necessários prazeres-necessidade não são odiados depois de nós
os termos, mas certamente “morrem em nós” de forma
extraordinariamente abrupta e completa. A torneira da pia e o
copo cheio são mesmo muito atraentes quando entramos em casa
com sede depois de cortar a grama do jardim; entretanto,
seis segundos depois, se tornam vazios de qualquer interesse.
Os prazeres de apreciação são muito diferentes. Fazemnos sentir que algo não apenas satisfez nossos sentidos, mas
reivindica nossa apreciação por direito. O especialista em vinhos
não aprecia seu vinho tinto da mesma forma com que teria ficado
satisfeito em esquentar seus pés se estivessem frios. Ele sente
que aqui está um vinho que merece toda a sua atenção; que
justifica todos os anos de treinamento que fizeram seu paladar se
tornar apto para julgá-lo. Há, inclusive, uma pitada de
desprendimento em sua atitude. Ele deseja que o vinho seja
preservado e mantido em boa condição, não inteiramente por
razões pessoais. Mesmo se ele estivesse em seu leito de morte e
nunca mais fosse beber vinho de novo, ficaria horrorizado com a
ideia de que esse vinho especial fosse derramado ou estragado,
ou mesmo bebido por pessoas não sofisticadas (como eu),
incapazes de saber a diferença entre um bom e um mau vinho
tinto. Assim acontece também com a pessoa que passa pela
plantação de ervilhas. Essa pessoa não apenas aprecia como
também sente que aquela fragrância, de alguma forma, merece ser apreciada. Iria culpar-se caso passasse pelo campo sem dar
atenção ou sem se contentar. Isso seria estúpido, insensível. Essa
pessoa se lamentará quando ouvir que aquele jardim, pelo qual
passou um dia em sua caminhada, foi agora engolido por
cinemas, por garagens e por um novo viaduto.
Do ponto de vista científico, ambos os prazeres são, sem
dúvida, relativos aos nossos organismos. No entanto, os prazeresnecessidade anunciam, de uma forma ruidosa, sua relatividade
não apenas à nossa constituição humana, mas à sua condição
passageira, e, fora desta relação, não possuem significado ou
interesse para nós. Os objetos que produzem prazeres de
apreciação oferecem o sentimento — irracional ou não — de que
devem, de algum modo, receber atenção, ser degustados e
louvados. Contudo, jamais deveríamos sentir algo parecido com
relação a um prazer-necessidade: nunca deveríamos nos culpar,
ou culpar os outros, por não sentir sede e, portanto, passar por
um poço sem beber um gole de água.
C. S. Lewis. Os quatro amores. Tradução: Estevan Kirschner.
1.ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017 (com adaptações).