A sociedade industrial é maléfica para a velhice. [...]. A
sociedade rejeita o velho, não oferece nenhuma sobrevivência à
sua obra. Perdendo a força do trabalho ele já não é produtor nem
reprodutor. Se a posse e a propriedade constituem, segundo
Sartre, uma defesa contra o outro, o velho de uma classe
favorecida defende-se pela acumulação de bens. Suas
propriedades o defendem da desvalorização de sua pessoa. O
velho não participa da produção, não faz nada: deve ser tutelado
como um menor. Quando as pessoas absorvem tais ideias de
classe dominante, agem como loucas porque delineiam assim o
seu próprio futuro.
Nos cuidados com a criança, o adulto “investe” para o futuro,
mas em relação ao velho age com duplicidade e má-fé. A moral
oficial prega o respeito ao velho, mas quer convencê-lo a ceder
seu lugar aos jovens. [...]. Se o idoso não cede à persuasão, à
mentira, não se hesitará em usar a força. Quantos anciãos não
pensam estar provisoriamente no asilo em que foram
abandonados pelos seus!
A característica da relação do adulto com o velho é a falta de
reciprocidade que pode se traduzir numa tolerância sem o calor
da sinceridade. Não se discute com o velho, não se confrontam
opiniões com as dele, negando-lhe a oportunidade de
desenvolver o que só se permite aos amigos: a alteridade, a
contradição, o afrontamento e mesmo o conflito. Quantas
relações humanas são pobres e banais porque deixamos que o
outro se expresse de modo repetitivo e porque nos desviamos
das áreas de atrito, dos pontos vitais, de tudo o que em nosso
confronto pudesse causar o crescimento e a dor! Se a tolerância
com os velhos é entendida assim, como uma abdicação do
diálogo, melhor seria dar-lhe o nome de banimento ou
discriminação. [...].
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças dos velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 77.
Assinale a alternativa que melhor resume as ideias do texto.