Por uma revolução na saúde sem prescindir de nossos princípios
A quarta revolução industrial inicia-se impulsionada pela inteligência artificial (IA), pela análise de dados em larga escala e
pela automação avançada. Essa nova era vem redesenhando a forma como produzimos, nos comunicamos e, cada vez mais,
como cuidamos da saúde. Diagnósticos mais rápidos e precisos, terapias personalizadas, otimização de processos hospitalares,
e a previsão de surtos com antecedência. Uma promessa tentadora de eficiência, precisão e vidas salvas.
Entretanto, diante das sempre deslumbrantes promessas tecnológicas, surge uma pergunta urgente e necessária: como
garantir que essas ferramentas, tão poderosas quanto pouco transparentes, realmente apresentam a eficácia prometida? E
mais: que funcionam com segurança, ética e equidade?
Se em muitas áreas o objetivo das decisões é maximizar o lucro, na saúde, cada decisão carrega o peso da vida de um ser
humano, com laços afetivos e papéis sociais. Por isso, a incorporação de tecnologias de IA precisa ser pautada, antes de qualquer
entusiasmo, por princípios éticos e científicos.
Apesar dos inúmeros lançamentos de soluções baseadas em IA na saúde, a imensa maioria entra no mercado com
evidências frágeis: sem estudos comprovando sua eficácia ou segurança, ausência de revisões independentes, sem demonstrar
cumprir critérios mínimos para determinarem decisões clínicas. Não é raro encontrar algoritmos treinados em bases de dados
limitadas, que funcionam bem em ambientes controlados, mas falham quando expostos à complexidade do mundo real –
especialmente quando lidam com diferentes populações e dimensões de valor.
Se, em todo o mundo, agências reguladoras estabelecem que nenhum novo teste diagnóstico ou tratamento é aprovado
sem estudos bem estruturados e revisados por pares, por que aceitaríamos menos de uma ferramenta de IA que influencia
diagnósticos e decisões terapêuticas?
É preciso exigir que a IA na saúde siga, ao menos, os mesmos princípios da medicina baseada em evidências: estudos metodologicamente robustos, amostras representativas, reprodutibilidade dos resultados e avaliações independentes. O fascínio pela
inovação e rapidez de resultados não pode obscurecer nossa responsabilidade com bem-estar social.
Essa exigência é ainda mais crucial, porque a IA generativa, ao contrário de uma tecnologia passiva, aprende, se atualiza,
se transforma. Um algoritmo aprovado hoje pode apresentar comportamentos diferentes amanhã. Isso impõe a necessidade
de evidências e monitoramento contínuo, avaliando não apenas a performance técnica, mas também garantindo a ética e a
equidade na assistência aos pacientes ao longo do tempo.
A promessa da IA na saúde não está completa sem um compromisso com a inclusão e acessibilidade. É crucial que seus
avanços beneficiem a todos, independentemente da localização geográfica ou condição socioeconômica.
A inteligência artificial tem potencial para revolucionar a saúde. Mas toda revolução que ignora a ética e a ciência, cedo
ou tarde, cobra um preço alto. Se quisermos que essa revolução realmente floresça em benefício das pessoas e da sociedade,
precisamos agir agora, com responsabilidade. É urgente prevenir para que a IA, tão cheia de promessas, não repita a velha
tragédia das revoluções que, cegas pela pressa, acabam prescindindo de seus princípios.
(Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br. Acesso em: junho de 2025. Fragmento.)