Dólar a R$ 6 é o novo normal? Os fatores que explicam a
alta da moeda
O dólar não para de bater recorde atrás de recorde e
ultrapassou pela primeira vez a barreira dos R$ 6. A disparada
começou na quarta-feira (27/11) em antecipação ao anúncio do
pacote de corte de gastos pelo governo de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT). O dólar só aumentou desde que o plano do governo
foi anunciado, superando dia após dia o maior valor histórico.
Passou de R$ 6 na sexta-feira (29/11), subiu ainda mais, para
R$ 6,06, na segunda-feira (2/12) e fechou na terça-feira a R$
6,07.
A subida da cotação do dólar não deu até agora sinal de que
vai arrefecer. Seria então o dólar a R$ 6 o novo normal?
Além do corte de gastos, o governo Lula incluiu no pacote
a isenção de imposto de renda (IR) para pessoas que recebem
até R$ 5 mil por mês. Há dúvidas sobre o custo e o impacto da
medida e até a interpretação de que seu objetivo é eleitoreiro.
Outro fator é a incerteza no cenário internacional,
principalmente relacionado ao futuro governo do presidente
eleito nos Estados Unidos, Donald Trump, que tem prometido
medidas protecionistas.
Haddad anunciou, em entrevista coletiva na quinta-feira
(28/11) uma série de medidas que buscam economia de R$ 327
bilhões em gastos públicos até 2030. Essas mudanças ainda
dependem de aprovação no Congresso Nacional. Dentre as
medidas, estão a limitação da valorização real do salário
mínimo e no pagamento de abono salarial, extinção de certos
benefícios na aposentadoria de militares, dentre outros. Mas o
que tomou, de fato, as atenções do mercado, foi outro anúncio,
de mudanças na tabela do imposto de renda a partir de 2026,
isentando todos aqueles que recebem até R$ 5 mil por mês —
atualmente, o limite é de R$ 2.824, ou dois salários mínimos.
O governo prevê que o impacto da medida será de R$ 35
bilhões e propõe, como compensação, que aqueles que
receberem acima de R$ 50 mil por mês paguem mais imposto
— uma alíquota mínima de 10%. Em uma declaração pública
feita após o anúncio do pacote, Haddad disse que houve uma
"confusão muito grande" em relação à isenção do imposto de
renda e que houve "ruído". "Sabíamos que o debate da renda
ia exigir um aprofundamento da questão", disse Haddad. "Não
é uma coisa que vai ser votada este ano. Nem deveria, pelo fato
de ser uma matéria que tem que contar com o debate da opinião
pública. Não é um assunto que vai ser resolvido em três
semanas."
O ministro também afirmou que a medida é “neutra”, ou seja,
que não tem como objetivo aumentar ou diminuir a
arrecadação, mas sim buscar promover uma maior justiça
tributária. Na sexta-feira (29/11), o presidente do Senado,
Rodrigo Pacheco (PSD-MG), divulgou uma nota em que disse
que não haveria reforma tributária da renda sem haver
condições fiscais. "A questão de isenção de IR, embora seja um
desejo de todos, não é pauta para agora e só poderá acontecer
se (e somente se) tivermos condições fiscais para isso", disse
Pacheco.
Economistas e agentes do mercado ouvidos pela BBC News
Brasil afirmam que um dos motivos para a alta do dólar é a
frustração com o pacote anunciado por Haddad.
Para Josilmar Cordenonssi, professor de ciências
econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM),
há uma desconfiança do mercado financeiro em relação ao
governo Lula. "O mercado financeiro vê que o governo não tem
intenção de resolver o problema fiscal", diz Cordenonssi. "O
governo acha que o mercado é muito exigente, quer ganhar
dinheiro com juros altos. O mercado é muito ressabiado de que a política fiscal do governo seja voltada à política eleitoral,
populista, de diminuir impostos e aumentar transferências para
as camadas mais pobres, que dão mais votos", prossegue.
"Esse conflito de visões de mundo faz com que o mercado fique
arredio em embarcar nessa política do governo."
Na avaliação de Victor Gomes, professor no departamento de
economia da Universidade de Brasília (UnB), o pacote tem
pontos "bons" e "justos". "Mas quando você tem a necessidade
de fazer restrição fiscal, não pode querer, ao mesmo tempo,
fazer junto uma expansão fiscal. E sem colocar as coisas no
papel. Você frustra demais todas as expectativas", diz Gomes.
Cordenonssi ressalta que o câmbio reflete a falta de confiança
do mercado financeiro na política fiscal do governo. Na sua
avaliação, faltou também um avanço mais significativo em se
buscar uma maior eficiência dos gastos públicos. "São boas
intenções que se fala, mas nenhuma medida efetiva nesse
sentido", diz Cordenonssi. "Se a paciência [do mercado] estava
bastante curta em relação à boa vontade do governo, o
resultado não está agradando mais. A ala política está pesando
mais nas decisões, e a reação do mercado não está sendo nada
positiva." Para ele, "o mercado está vendo é que são questões
mais para empurrar com a barriga para um próximo mandato."
Desde o que ex-presidente Donald Trump foi eleito nos
Estados Unidos, no início de novembro, já havia a expectativa
de valorização da moeda americana. No Brasil, a
combinação pode ter efeitos negativos no curto prazo para a
economia, com um ciclo de dólar mais alto e possível redução
das exportações.
Para Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, é
difícil supor que o nível de câmbio será o novo normal no longo
prazo. Mas Honorato ressalta que o dólar pode ficar como está
ou até mesmo em um patamar ainda mais alto "até que haja
uma percepção mais clara sobre a dinâmica futura da dívida
pública". Ou seja, como o governo Lula vai lidar com o aumento
do endividamento do país.
Roncaglia, do FMI, avalia que a combinação entre Trump, a
agenda fiscal do Brasil e as desconfianças globais sobre a
economia da América Latina "tendem a manter nossa moeda
desvalorizada, à medida que essas incertezas externas não se
dissiparem".
https//:www.bbc.com/portuguese/articles/c2e783983yeo. Adaptado. Acesso em 04/12/2024