Texto 9A1
No cotidiano de todo brasileiro, podemos visualizar
as marcas que constituíram, a partir do século XVI, a presença
dos povos africanos, de origem Banto e Iorubá, no Brasil. Essa
presença está nas palavras que falamos, na gestualidade que
produzimos e no nosso modo de pronunciar a língua portuguesa
falada no Brasil.
A entrada de grande número de africanos no Brasil, com
suas diferentes culturas e línguas, passou por um processo de
adaptação, de certo ajuste cultural e linguístico com a assimilação
de novas palavras e, consequentemente, da forma como elas
orientavam o entendimento da nova realidade vivida em
português. Entretanto, ainda é possível visualizar a presença
das palavras africanas nos diferentes espaços da cultura
brasileira.
O Museu da Língua Portuguesa, ao expor o acervo de
palavras africanas que entraram no vocabulário da língua
portuguesa, favorece reconhecer a história da população africana
no Brasil como agente da cultura e da língua portuguesa que se
desenhava sobre este solo. No setor Palavras Cruzadas do museu,
por exemplo, visualizam-se palavras que nos ensinaram a nomear
determinados comportamentos, como: bagunça lengalenga,
dengo. Essas são algumas das palavras africanas que continuam
vivas a significar comportamentos e relações sociais. Outras
ganharam o sentido de gíria na língua portuguesa falada
no Brasil, como borocoxô, cafofo.
A cultura é algo que está no corpo, nos gestos,
na memória, na forma de andar, no contorno das expressões
verbais e não verbais. Não é possível perdê-la. A mudança de
um contexto cultural para outro acompanha adaptações e
recriações dadas em palavras, por isso podemos falar em
um movimento de antropofagia simbólica no lugar de
uma simples assimilação de palavras e práticas.
As línguas mudam ao acompanharem a história dos seus
falantes. Esta é a história da língua portuguesa em solo brasileiro:
ela também pode adaptar-se às novas relações linguísticas e
culturais. No Brasil, a manutenção da estrutura latina da língua
portuguesa não impediu que esta acolhesse uma nova sonoridade
em relação à sua matriz e incorporasse um grande vocabulário de
palavras que veio de outras línguas.
Como um detetive que reúne pistas para contar
uma história, as palavras africanas expostas no acervo do Museu
da Língua Portuguesa compõem o papel de traduzir os sentidos e
significados compartilhados na cultura brasileira. É uma história
nem sempre contada em livros didáticos, mas que carregamos
conosco para os diferentes lugares a que podemos ir.
A importância da língua portuguesa como um bem museológico
se faz nesse ato de contar histórias que não são definidas por nós,
mas são praticadas e vividas coletivamente.
Wilmihara Santos.
A presença africana nas palavras que falamos em português.
2018.Internet:<museudalinguaportuguesa.org.br> (com adaptações).