POR CAUSA DE UMA VÍRGULA MAL-ENCARADA
E na tarde que o Dr. Feitosa de Castro, diretor das Águas e Encanamentos de São João da Laje,
pediu que o escrevente Porfírio Freixeiras retirasse certa vírgula de certo ofício, Freixeiras tremeu nos
borzeguins. Espumou gramática, pronomes e crases. Em vinte anos de Águas e Encanamentos, de
ofícios e pareceres, nunca chefe algum, em tempo algum, mandou que ele extraísse essa ou aquela
vírgula de seus escritos. Com o papel na mão, ficou remoendo, remoendo, tira-a-vírgula, não-tira-avírgula. Até que tomou uma decisão definitiva. Chegou junto à mesa de Feitosa de Castro e expediu o
seguinte ultimato:
– Ou o doutor deixa a vírgula ou eu peço transferência de repartição.
Feitosa que era homem de pontos de vista firmados, foi claro:
– A vírgula sai e o distinto amigo também.
O resto veio no Diário Oficial. Vejam que barbaridade. Por causa de uma simples vírgula, uma
inútil vírgula, Freixeiras foi redigir ofícios em Barro Amarelo. Lugar que não dava a menor importância
às crases, quanto mais às vírgulas.
(CARVALHO, José Cândido de - PORQUE LULU BERGANTIM NÃO ATRAVESSOU O RUBICON - Rio de Janeiro, Livraria
José Olímpio Editora, 1971, págs. 117-118)
Leia atentamente o texto acima, e responda à questão abaixo.