Ainda hoje, ninguém quer falar sobre isso. Às vezes, desconfiam que se trata de alguma performance – um fingir
sofrer por atenção. Às vezes, acham que é falta de alguma coisa em particular que eles mesmos já descobriram
o que é – de emprego, de algum deus, de tempo ao ar livre, de correr na esteira.
E no geral, acham que é só desagradável de comentar mesmo. Algo que deveria ser evitado não só como
sentimento, mas como assunto. Porque falar sobre é negatividade. Focar no problema, dizem, é parte do problema.
É assim que se constrói o tabu sobre saúde mental. Uma receita que mistura máximas redutivas, achismos
superficiais, experiências pessoais convertidas em regras, a famosa pressão por expressar positividade e uma
boa dose de preconceito.
É bem verdade que tudo carrega nuances. Sim, existe uma cultura de performance e até de romantização do
sofrimento mental, principalmente nas redes sociais. Sim, passear ao ar livre e fazer exercícios físicos pode fazer
bem para sua cabeça. E sim, tem gente que reclama demais mesmo, o tempo todo e para todo mundo,
desconsiderando que o ouvido dos outros não é um penico.
Mas sim, é verdade também que o sofrimento mental existe. É verdade que se trata de um problema
frequentemente complexo que não vai ser resolvido com alguma receita de bolo. E é verdade também que evitar
falar sobre isso não ajuda a ninguém.
Disponível em: https://saude.abril.com.br/coluna/em-primeira-pessoa/cresci-em-uma-familia-marcada-por-transtornos-mentais/.
Acesso em: 14 set. 2024.
As expressões em destaque no trecho contribuem para a argumentação ao