POR QUE DESCONFIO DOS CAMPEÕES DA
MORALIDADE?
Gilberto Dimenstein, Folha de São Paulo,
25/11/2013
Especula-se que Joaquim Barbosa teria um projeto
secreto de se tornar presidente, montando sua imagem
positiva de caçador de corruptos -pesquisas eleitorais
não desanimam esse sonho.
Imagina-se que um campeão da moralidade salvaria
o Brasil da ladroagem.
Olhando a história do Brasil, há fartos motivos para
eu desconfiar de campeões da moralidade.
O PT é apenas o caso mais recente e estridente: o
partido que se notabilizou pela defesa da ética virou um
laboratório de estudos da biodiversidade da corrupção,
tantas e tão diferentes são as modalidades de desvio que
o partido engendrou.
O PSDB foi criado, em São Paulo, em oposição aos
esquemas corruptos do PMDB -e, agora, está metido
numa gigantesca rede de suspeitas devido aos cartéis
durante vários governos paulistas. Sem contar que, nas
origens do mensalão vamos encontrar, em Minas, o PSDB.
Fernando Collor se elegeu com a bandeira da batalha
contra a corrupção. Sabemos o que ocorreu.
No mesmo estilo, Jânio Quadros se elegeu com o
símbolo da vassoura. Se não me engano, foi o único
brasileiro que teve divulgada sua conta na Suíça.
Todo aquele estardalhaço dos moralistas contra JK,
Jango ou Getúlio se prestou para minar governos eleitos
democraticamente e colocar no poder uma ditadura que,
ao ampliar o poder do Estado, ampliou ainda mais a
corrupção. Não que, naqueles governos, não houvesse
desvios.
Evidentemente não sou contra o combate à
corrupção. E muito menos ao culto da honestidade.
O que estou dizendo é que, no Brasil, bandeiras da
moralidade viraram empulhação, nutrindo manchetes
com paladinos e enganando os cidadãos.
Honestidade não é qualidade. E não deveria ser
tema de campanha. Deveria ser apenas um pré-requisito
elementar.
Entusiasma muito menos mudar os esquemas que
favorecem a corrupção (o que exige complexas reformas)
do que punir os corruptos.