TEXTO III
Desenganos da vida humana,
metaforicamente
Gregório de Matos*
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
*Poema antologicamente reconhecido como de autoria
de Gregório de Matos
Fonte: MATOS, Gregório. Desenganos da vida humana,
metaforicamente In: Wisnik, José Miguel (org.). Poemas escolhidos
de Gregório de Matos. Edição vestibular. São Paulo: Companhia
das letras, 2015, p.340.
GLOSSÁRIO:
Airosa : esbelto, gracioso.
Soberba : orgulho, altivez.
Galheota : pequena embarcação a remo, usada para
o transporte do rei.
Presumida : vaidosa.
De abril favorecida : favorecida pela primavera
que inicia em abril na Europa.
Empavesado : enfeitado, adornado, guarnecido de
paveses (=proteção nas embarcações).
Ufana : que se orgulha de algo, vaidoso.
Fênix : divindade da mitologia egípcia, símbolo da
imortalidade, personificada em uma ave que renascia
das próprias cinzas.
Galhardia : garbo, elegância.
Aprestar : preparar com prontidão.
Alento : sopro, bafejo.
Penha : penhasco, rochedo.