Leia o texto a seguir para responder à questão.
Uma constante na doce relação entre os colunistas e
seus leitores é que, na exigente opinião destes, todo colunista é um amnésico crônico – ao tratar de qualquer assunto, sempre deixa de citar alguém ou alguma coisa. Eles têm
razão. Vide os comentários que começam por “Só se esqueceu de…” ou “Faltou dizer que…”. E, para vergonha do colunista, seguem-se os exemplos do que faltou ou foi esquecido.
Meu consolo é que nem sempre é por esquecimento. As
colunas têm limite de tamanho – a que você está lendo não
pode passar de 1880 caracteres – e não permitem que se
esgote o assunto. Às vezes, o colunista se vê diante de duas
citações e só tem espaço para uma.
Daí tento aproveitar o espaço ao máximo, concentrando
as ideias em poucas palavras, usando palavras mais curtas
e apagando aquelas que se revelam redundantes. Qualquer advérbio de modo, por exemplo, é totalmente inútil.
Se não acredita, corte o “totalmente” desta frase e veja se
ela perde em sentido. Radicalizando a cirurgia, corte também o “por exemplo”, e verá que o sentido continua intacto.
Com a extração dessas palavras ganham-se 20 caracteres,
que podem ser necessários no caso de se ter de escrever
“otorrinolaringologia”.
Em coluna recente, falei de como o Brasil tem mais faculdades de Direito do que a soma de todas no mundo, assim
como somos imbatíveis em farmácias, agências de banco,
supermercados, shoppings e lojas de colchões. […] Os leitores concordaram, mas disseram que faltou muita coisa.
E citaram: influencers, igrejas evangélicas, sites de apostas, botequins, motoqueiros, bocas de botox, academias de
ginástica, gente tatuada, de mochila às costas, de boné ao
contrário, de celular ao nariz. É verdade, faltou tudo isso.
Mas, como não existe memória absoluta, desconfio que continua faltando alguém ou alguma coisa.
(Ruy Castro. Faltou dizer que. Disponível em:
https://www.academia.org.br/artigos/faltou-dizer-que. 18.05.2024. Adaptado)