Leia o texto a seguir, início da crônica “Arte e ciência
de roubar galinha”, do escritor baiano João Ubaldo
Ribeiro (1941-2014):
A gente tem a tendência de pensar que só o que nós
fazemos é difícil e complexo, cheio de sutilezas e
complicações invisíveis aos olhos dos “leigos”. Isto,
naturalmente, é um engano que a vida desmascara a todo
instante, como sabe quem quer que já tenha ouvido com
atenção qualquer homem falar de seu trabalho, que
sempre, por mais simples, envolve atividades e
conhecimentos insuspeitados.
Assim é, por exemplo, roubar galinha. Tenho um
amigo aqui na ilha que é ladrão de galinha. Chamemo-lo
de Lelé, como naqueles relatos verídicos americanos em
que se trocam os nomes para proteger inocentes. Só que,
naturalmente, a nossa troca se faz para proteger um
culpado, no caso o próprio Lelé. É bem verdade que todo
mundo aqui sabe que ele rouba galinha, mas não fica bem
botar no jornal, ele pode se ofender.
Pois Lelé me tem demonstrado com eloquência toda
a arte e ciência de roubar galinha, que requerem longo,
paciente e estoico aprendizado, além, é claro, de vocação
e talento, pois sem estes de nada adianta o esforço.
Roubar galinha é uma especialização da galinhologia
geral, ramo do saber complicadíssimo, como verifico
todos os dias, ao visitar o galinheiro de Zé de Honorina e
ouvir as novidades do dia. Zé, que utiliza recursos
psicológicos sofisticados para induzir as galinhas ao
choco, calculou mal a lua, calculou mal os passes lá que
ele faz – resultado: todo mundo choco no galinheiro, um
có-có que ninguém aguenta e Ferrolho, o galo, indignado
com a situação (eis que galinha choca não quer nada com
a Hora do Brasil), chegando mesmo a agredir o próprio
Zé.
Sobre aspectos linguísticos e de interpretação do texto,
podemos afirmar que:
I.
A figura de linguagem predominante é a ironia, mas
encontramos também exemplo(s) de onomatopeia.
II. O texto procura se afastar da linguagem popular,
optando por usar muitos termos eruditos, como
“Chamemo-lo” (no segundo parágrafo).
III. O sentido do vocábulo “estoico” (no terceiro
parágrafo) é o de se manter impassível e firme diante
das adversidades.
IV. O vocábulo “galinhologia” (no terceiro parágrafo) é
um neologismo, ou seja, uma palavra inventada pelo
narrador.
V. A tipologia do texto nos apresenta uma descrição
objetiva e uma precisão informativa dos fatos.
VI. As palavras “qualquer” (primeiro parágrafo) e
“ninguém” (terceiro parágrafo) são pronomes
demonstrativos.
Assinale a alternativa CORRETA: