Leia o texto a seguir para responder à questão.
A tirana
Quem a vê, tão velhinha, tão honesta de aparência, não
sabe o que ali se esconde. Casou, teve filhos e lhe vieram
netos, e sobre a descendência ela se repastou no gozo de
mandar. Só queria dar ordens. Se um filho gostava de Maria,
seria com Joana que haveria de casar, mesmo porque um
filho não tinha o direito de gostar senão de quem ela gostasse. Se outro queria estudar Medicina, deveria estudar Direito.
Se a filha não queria engordar – ela a trataria especialmente
a mingau de fubá e macarronada. Afinal, ela dera vida e criara todos eles, e agora chegara o seu momento. Sua casa
era um quartel; ela gozava a delícia de implantar a disciplina
mais feroz.
Durante anos conseguiu ser mais adulada e festejada
do que um ministro em viagem pelo interior. Depois, com
os novos elementos, com os estranhos entrando na família,
começou a derrocada do império. Primeiro foi a nora que não
se quis desfazer de uma mobília de estimação e debandou
de casa. O marido da fugitiva ainda se demorou uns dias em
companhia da mãe, sem ter coragem de quebrar aquela disciplina que já lhe entrara pelos confins da consciência. Mas,
certa manhã, à hora do café, ele não apareceu. Era a Revolução. Pouco a pouco foram imitando o rebelde. O filho, que
fora obrigado a estudar Direito, largou a profissão e se permitiu ter negócios sem nenhum visto materno. A filha, que era
engordada como peru de Natal, arranjou emprego e passou
a almoçar tranquilamente as suas saladas.
Os filhos e os netos se arranjaram, como puderam, fora
de suas vistas. A senhora ficou sozinha em seu palacete.
Agora, o dinheiro sobrava, o espaço sobrava.
(Dinah Silveira de Queiroz.
Quadrante 1. Editora do Autor, 1962. Adaptado)