É ponto pacífico que um dos legados da linguística de
grande utilidade no contexto escolar é a visão não preconceituosa
sobre línguas e variedades de línguas. Esse foi um legado da
linguística estrutural que se consolidou com os desenvolvimentos
subsequentes da linguística, sobretudo a sociolinguística
variacionista. Essa visão não preconceituosa derivou
naturalmente da perspectiva da língua como estrutura, daí que o
caráter não normativo da linguística se opôs frontalmente à
atitude de preconceito linguístico que existia até então. Exemplos
de preconceito linguístico são o conceito de língua primitiva
(i.e., a ideia de que a povos de cultura dita “primitiva”
correspondem línguas igualmente “primitivas”), a valoração de
certas variedades de língua ou registros de língua em detrimento
de outras variedades e registros, e assim por diante. Acho que
ninguém hoje contestaria que o estudante que vai ser professor de
ensino básico deve receber uma formação que o torne isento de
preconceitos ou, pelo menos, o sensibilize contra preconceitos
linguísticos e o norteie para saber como reagir diante de situações
de variação dialetal.
Lucia Lobato. Linguística e ensino de línguas.
Brasília: Editora da UnB, 2015, p. 15 (com adaptações).