Colégios autoritários
Ao ameaçar, fazer vista grossa para agressões em seus pátios
e expulsar alunos que tentam reparação judicial, três escolas
de elite do Rio dão aula de falta de cidadania e de civilidade
Francisco Alves Filho
Conhecidas pelo excelente nível de ensino, três escolas do Rio
de Janeiro preferidas pela elite deram nas últimas semanas
verdadeiras aulas de desrespeito às regras mais básicas de
cidadania. Denúncias feitas por alunos de agressões ou
constrangimentos graves foram tratadas por esses
estabelecimentos de forma arbitrária e só fez aumentar o
sofrimento das vítimas e seus pais. No tradicionalíssimo Colégio
São Bento, recordista de aprovação no Enem, um aluno de 6
anos foi agredido por um adolescente de 14, a direção da escola
escondeu o fato dos responsáveis e se mostrou mais preocupada
com o agressor. Na Escola Alemã Corcovado, depois de levar
empurrão de um professor, um aluno de 12 anos, seu irmão e
seus pais foram excluídos do estabelecimento. No pH, a
adolescente Jannah Nebbeling, 15 anos, acusa coordenadoras
de ameaçá-la por conta de uma comunidade virtual na qual
discutia conteúdos curriculares. “Iniciei uma ação contra o colégio
por coação, constrangimento e ameaça, além de danos morais",
diz Andréa Coelho, mãe de Janna. Os outros dois casos também
foram parar nos tribunais. Para piorar, diretores criticaram direta
ou indiretamente os pais que foram à Justiça, como se nos limites
da escola vigorasse uma lei diferente da do restante do País.
O imbróglio mais comentado foi a abordagem dada pelo São
Bento, escola com 153 anos de existência, a uma sequência de
agressões sofrida pelo aluno de 6 anos. Ele apanhou de outro,de 14 anos, no dia 26 de maio. Para justificar aos pais os
ferimentos na cabeça e na testa do menino, a diretoria da escola
informou que tudo não passara de um “acidente" causado por
simples brincadeira. A verdade logo veio à tona, mas a posição
do colégio continuou inadequada. O agressor foi punido com
apenas um dia de suspensão. “Eu e meu marido reivindicamos
a expulsão dele, até para garantir que meu filho tivesse segurança
para ir à escola. Isso não aconteceu e resolvemos procurar a
polícia para denunciar o colégio", explica a advogada Viviane
de Azevedo, mãe da vítima. A reação do estabelecimento de
ensino foi equivocada. “Estão querendo transformar um acidente
educacional em um fato criminal", reclamou Mário Silveira,
supervisor administrativo do São Bento, que tem mensalidades
em torno de R$ 2 mil. Silveira ainda se referiu ao agressor como
alguém que estaria “sendo mais punido do que o acidentado".
“Num contato com a direção, ouvi que aquela era a maneira de
agir do São Bento e quem não estivesse satisfeito estaria livre
para sair", recorda Viviane. “Entendi o recado e tirei meu filho
de lá."
Na Escola Alemã Corcovado – onde, para ingressar, os pais têm
que desembolsar R$ 8 mil, além das mensalidades de R$ 2 mil –
a agressão teria partido de um mestre. Um estudante de 12 anos
reclama que, durante uma aula realizada no ano passado, foi
empurrado pelo professor alemão Jens Wiemer, que berrava
palavrões. O menino caiu e bateu com a cabeça e as costas no
chão. Os pais do garoto só souberam da agressão um mês
depois. Foram à polícia e ao Ministério Público. O professor foi
suspenso e voltou para a Alemanha. Algum tempo depois, os
pais da vítima passaram a notar que o menino era avaliado na
escola “com rigor exagerado e diferenciado em relação aos
colegas de sala", segundo relata a ação. Depois de novo protesto,
veio a decisão mais surpreendente: tanto o aluno denunciante
quanto seu irmão e seus pais souberam há três meses que foram
excluídos da escola. “Essa decisão decorreu exclusivamente
das várias violações aos estatutos cometidas pela família", relata
nota da escola à ISTOÉ. “Não decorreu do exercício legal e
regular da família de seu direito de denunciar o que achasse
devido às autoridades competentes." Sob qualquer aspecto, uma
total inversão de valores.
No caso do curso pH, o diretor de ensino Rui Alves argumenta
que não houve ameaça à menina e, segundo ele, a comunidade
virtual que distribuiria uma “cola" associava o colégio a palavrões.
“A mãe tem todo o direito de ir à Justiça, mas isso é um assunto
pedagógico", diz Alves. Doutor em pedagogia, o professor
Henrique Sobreira critica as escolas: “São atitudes de quem
promete uma educação para a cidadania e faz algo bem diferente",
diz ele. A lição é a pior possível. “Quando escolas se acham
acima da lei, é compreensível que os alunos também passem
a pensar da mesma forma", avalia o especialista.