A vida em papelão
“Dormir em caixa custa R$ 2,00 por dia em São Paulo.”
Cotidiano, 6 dezembro 1998.
A ideia lhe veio ao observar a quantidade de gente
dormindo na rua no centro da cidade.
Existe aí uma demanda potencial, pensou. E como
estava, ele próprio, desempregado, resolveu arriscar
a sorte em um novo negócio: o aluguel de caixas
de papelão.
O que não seria nada difícil. Caixas poderiam ser obtidas
em lojas, supermercados, fábricas. E os sem-teto
aceitariam com entusiasmo a possibilidade de dormirem
menos expostos aos elementos – e aos olhares alheios.
O negócio deu certo, e ele foi sofisticando a oferta.
Dispunha de caixas em vários tamanhos, algumas
acolchoadas, outras pintadas em cores alegres, várias
com rádio e TV. Os preços subiam progressivamente,
de acordo com a dimensão da caixa e o conforto desta.
[...]
Ganhou muito dinheiro, encontrou uma linda mulher que
aceitou viver com ele. Não numa caixa, naturalmente:
ela queria uma casa. Uma casa muito grande e
muito bonita.
E uma casa ele fez. Uma casa muito grande e muito
bonita, num bairro elegante. É uma casa que chama a
atenção de todos, não só pelo design arrojado, como
também por uma peculiaridade: é feita de papelão.
Papelão especial, muito espesso e impermeável,
mas papelão.
Nessa casa de papelão ele vive feliz com a mulher.
Só uma coisa o preocupa: tem medo de que algum
invejoso bote fogo na casa. O papelão é um grande
material, mas, infelizmente, não resiste às chamas.
Nada é perfeito.
Disponível em: https://bit.ly/3gYC0OQ.
Acesso em: 10 out. 2022. [Fragmento]
Uma característica do gênero evidenciada no texto é a(o)