Com o próximo casamento e partida para a Europa de
minha filha Susana, andei arquitetando um meio de extorquir-lhe
o meu retrato, feito por Candinho Portinari em 1938, que ora lhe
pertence, de que muito gosto e que deve ter, aliás, na obra do
pintor, certa importância, pois foi o primeiro, ao que eu saiba,
realizado com inteira liberdade, depois da grande série de
“retratos sociais” (chamemo-los assim, sem qualquer desdouro,
nem para o artista, nem para os retratados) que ele andou
pintando de alguns membros ilustres de nossa sociedade e de
nossa inteligência. Lembra-me mesmo que, ao me propor fazê-lo,
sabendo que eu estava de partida para a Inglaterra, Candinho
sugeriu-me, com aquela eterna rabugice sua, que eu o deixasse
pintar livremente, pois estava um pouco cansado do gênero de
retratos que fazia e que tanto afagavam a vaidade da maioria dos
retratados. Sei que em duas poses, em sua antiga casa das
Laranjeiras, o retrato estava pronto e era como se se respirasse
um novo ar dentro dele. Dias depois, estando eu no cais para
embarcar em minha primeira grande viagem, chega ele
sobraçando o retrato, que vinha oferecer-me. Mas a primogênita
foi inflexível, no egoísmo do seu amor filial.
Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor. 2008, p. 34 (com adaptações).