TEXTO 5
O que há de mais importante na literatura, sabe? É a
aproximação, a comunhão que ela estabelece entre seres
humanos, mesmo a distância, mesmo entre mortos e vivos.
O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de
Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles.
(...) O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos
não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e
que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará
porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O
telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma
voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e
repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente,
mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu
isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui
uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de
todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem
não a sente.
(Carlos Drummond de Andrade. Tempo, vida, poesia. Rio de
Janeiro: Record, 1986, p. 58-59).