Era madrugada quando a porta abriu:
– Acorda, acorda, Chiquinho... É tu que vai levar o recado
pra Zé Barbatão!
O menino esfregou os olhos cheios de remela.
Para satisfação da mãe, não hesitou. Pulou da cama
como um soldado em miniatura. Chiquinho ouviu o
cantar do galo, latidos distantes e o rádio, som baixo,
ligado no quarto dos pais, “... prevista para esta manhã
a extraordinária passagem do...”. Reconheceu os cheiros.
Ovo mexido, café prontinho. O lampião trazido pela mãe,
postado no chão, iluminava todos os pés do quarto.
Comeu apressado. A mãe tentava sorrir. Parecia alerta,
com medo de alguma coisa?
– O que tem no bilhete, mainha?
– E eu vou saber, menino? É coisa de Doutor Quincas.
Então era recado do Coronel Quincas, em cuja propriedade
a família de Chiquinho vivia e trabalhava. Mas quem
garantia que não tinha ali também coisa dela? Afinal,
o envelope soltava um perfume.
AGUIAR, Cristhiano. Anda‑luz. Alfaguara, 2022.