Texto CG2AI
Presumivelmente, o processo de criatividade, seja ele qual
for, é essencialmente o mesmo em todos os seus ramos, de modo
que a evolução de uma nova forma artística, um novo mecanismo
ou um novo princípio científico envolve fatores comuns.
Uma maneira de investigar o problema é considerar as
grandes ideias do passado e ver como elas foram geradas.
Infelizmente, o método de geração não é claro nem mesmo para
os próprios “geradores”.
Mas e se a mesma ideia revolucionária ocorrer a dois
homens, simultânea e independentemente? Talvez os fatores
comuns envolvidos sejam esclarecedores. Considere a teoria da
evolução pela seleção natural, criada independentemente tanto
por Charles Darwin quanto por Alfred Wallace.
Nesse caso, existem muitos pontos em comum. Ambos
viajaram para lugares distantes, tendo observado espécies
estranhas de animais e plantas e a maneira como variavam de
lugar para lugar. Ambos estavam profundamente interessados em
encontrar uma explicação para isso e falharam até cada um deles
ler o Ensaio sobre o princípio da população, de Malthus.
Ambos, então, viram como a noção de superpopulação e
esgotamento (que Malthus havia aplicado aos seres humanos) se
encaixaria na doutrina da evolução pela seleção natural (se
aplicada às espécies em geral).
Obviamente, portanto, o que é necessário não são apenas
pessoas com uma boa formação em uma área específica, mas
também pessoas capazes de estabelecer uma conexão entre itens
que podem não parecer usualmente conectados.
Sem dúvida, na primeira metade do século XIX, muitos
naturalistas estudaram a maneira pela qual as espécies se
diferenciavam entre si. Muitas pessoas leram Malthus. Talvez
algumas tenham estudado as espécies e lido Malthus. Mas o que
era preciso era alguém que estudasse espécies, lesse Malthus e
tivesse a capacidade de fazer uma conexão cruzada.
O ponto crucial é a rara característica que deve ser
encontrada. Uma vez que a conexão cruzada é feita, ela se torna
óbvia. Thomas H. Huxley teria exclamado depois de ler
A Origem das Espécies: “Que estúpido da minha parte não ter
pensado nisso!”.
Mas por que ele não pensou nisso? A história do
pensamento humano poderia fazer parecer que há dificuldade em
pensar em uma ideia, mesmo quando todos os fatos estão sobre a
mesa. Fazer a conexão cruzada requer certa ousadia — porque
qualquer conexão cruzada realizada de uma só vez por muitos se
desenvolve não como uma nova ideia, mas como um mero
corolário de uma velha ideia.
É somente mais tarde que uma nova ideia parece razoável.
De início, ela normalmente parece sem sentido. Parecia a máxima
insensatez supor que a Terra se movia em vez do Sol, ou que os
objetos exigiam uma força para detê-los quando em movimento,
em vez de uma força para mantê-los em movimento, e assim por
diante.
Uma pessoa disposta a seguir em frente enfrentando a
razão, a autoridade e o bom senso deve ser uma pessoa de
considerável autoconfiança. Como ela aparece apenas raramente,
deve parecer excêntrica (pelo menos nesse aspecto) para o resto
de nós. Uma pessoa excêntrica em um aspecto frequentemente o
é em outros. Consequentemente, a pessoa com maior
probabilidade de obter novas ideias é uma pessoa de boa
formação na área de interesse e alguém que não é convencional
em seus hábitos.
Isaac Asimov. Sobre criatividade: como as pessoas têm novas ideias?
In: MIT Technology Review, jul./2020 [originalmente escrito em 1959].
Internet: <mittechreview.com.br> (com adaptações).