'Não sei onde vamos parar', diz cientista sobre
frequência de eventos climáticos extremos.
Especialistas ouvidos pelo Terra alertam que as consequências
do aquecimento global podem antecipar projeçõe s sobre
extinção da vida humana.
17 maio 2024
Hugo Barbosa
O agravamento do aquecimento global, nos últimos
anos, aliado aos eventos climáticos extremos recentes,
como as enchentes que atingiram 458 cidades no estado do
Rio Grande do Sul, no início de maio, levanta várias
questões no meio científico, incluindo a possibilidade de
uma extinção em massa da humanidade devido às
variações de temperatura no planeta. Especialistas ouvidos
pelo Terra alertam, no entanto, que as mudanças climáticas
podem ser mais extremas, catastróficas e, o que é pior, mais
rápidas do que o projetado.
Na avaliação de Márcio Astrini, secretário-executivo do
Observatório do Clima, a população humana deve se
preparar para cenários pessimistas decorrentes do
aquecimento global em um período mais curto do que o
projetado em meios acadêmicos. "Existem projeções de
aquecimento do planeta para daqui até o fim do século, não
precisa nem ir tão longe assim, de milhões de anos, não",
comenta, referindo-se à pesquisa da Universidade de
Bristol, cujos modelos climáticos indicam que os mamíferos
serão extintos em 250 milhões de anos.
"Podemos chegar ao aquecimento médio de temperatura
no planeta de aproximadamente 4 graus, se nada for feito e
se continuarmos acelerando a emissão de gases. Com 4
graus, a extinção em massa de espécies no planeta é algo
seguro e garantido. Não há dúvida.", alerta Márcio Astrini,
do Observatório do Clima.
Astrini cita como base o relatório do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC),
organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e
que conta com mais de 600 cientistas para estudar, debater
e projetar os impactos das mudanças climáticas. O
documento, divulgado em 2023, detalha as consequências
devastadoras do aumento das emissões de gases do efeito
estufa em todo o mundo: a destruição de casas, a perda de
meios de subsistência e a extinção de comunidades.
Astrini cita ainda a perda de espécies inteiras em todo o
ecossistema marinho, dificuldade de produzir comida na
quantidade que produzimos hoje e escassez da água potável.
"O ser humano vai ter baixa capacidade adaptativa e alguns
vão sobreviver, outros não. É isso que vai acontecer se
continuarmos assim", diz.
De acordo com o relatório, cerca de metade da população
global já vive, por exemplo, em situações de escassez severa de água, durante pelo menos um mês por
ano, enquanto as altas temperaturas facilitam a disseminação
de doenças vetoriais, como a malária.
Na mesma linha de Astrini, Francisco Milanez, diretor
científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente
Natural (Agapan), ressalta que a pior catástrofe
socioambiental da história do Rio Grande do Sul é um alerta
de como as consequências das mudanças climáticas já são
uma realidade. Segundo ele, a realidade gaúcha afasta a
ideia de aquecimento global como um problema abstrato e
distante da vida da população do planeta. "Tanto o planeta
como o Brasil estão emitindo alertas constantes por meio
desses eventos climáticos extremos. Nunca vimos isso na
história do País", afirma.
Milanez cita um estudo realizado por pesquisadores do
ClimaMeter, que indica que as mudanças climáticas
provocadas pela ação humana, especialmente a emissão de
gases do efeito estufa liberados com a queima de
combustíveis fósseis, tornaram as chuvas no Rio Grande do
Sul mais intensas.
"Se continuarmos assim, nesse ritmo, não sei onde
vamos parar. Não será preciso milhões de anos, se
permanecermos assim", completa.
https://www.terra.com.br/planeta/meio-ambiente