A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas
ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele diacho de sagui-açu (...) não era saguim não,
chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros
cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas
e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés
dodges mármons e eram máquinas.
O herói aprendendo calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel escutando
assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa deusa
de deveras forçuda, Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira
que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar. Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também
imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela
mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto.
Era feita pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens
aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou? nem o herói!
[... ]
Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos,
Macunaíma concluiu: — Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta.
Há empate.
ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. p. 110.
O Modernismo brasileiro caracterizou-se pela inovação na linguagem e na temática. No trecho de
Macunaíma, no TEXTO, Mário de Andrade, bem ao estilo antropofágico, segue à risca esse caráter
inovador, sobretudo, quanto ao uso de:
A- construções sintáticas pouco usuais;
B- palavras de origem indígena;
C- linguagem coloquial;
D- figuras do folclore nacional.
Faça a correspondência dessas características da obra de Mário de Andrade com os excertos do TEXTO, a seguir.
( ) “Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando”.
( ) “mais cantadeira que a Mãe-d’água”.
( ) “Mas as três cunhãs deram muitas risadas”.
( ) “que não tinha deus não”.
Então, assinale a alternativa que representa as características do trecho de Macunaíma na ordem em que
aparecem, respectivamente, os excertos retirados do TEXTO.
Esta questão foi aplicada no ano de 2017 pela banca IF-PE no concurso para IF-PE. A questão aborda conhecimentos da disciplina de Língua Portuguesa, especificamente sobre Compreensão e Interpretação Textual, Análise Textual.
Esta é uma questão de múltipla escolha com 5 alternativas. Teste seus conhecimentos e selecione a resposta correta.