TEXTO IV – A menina e o pássaro encantado
(Rubem Alves, Ciranda Cultural – texto adaptado)
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um
pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da
gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava
livre e vinha quando sentia saudades...
As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas
cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente
branco, cauda enorme de plumas fofas como algodão...
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente
branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que
faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do
encanto que vi, como presente para ti...
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina
nunca vira. Até que ela adormecia e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os
pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram
como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho
das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem
parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. (...)