[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes
da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu
acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva
que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência.
Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa
simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu
lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber
qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva
o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas
um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância
existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone,
automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso
mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade,
para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se
entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram
que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu
cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de
algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno.
Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que O homem
inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa
pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou
calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os
móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se
usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de
variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa
com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado
quentar sol”, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para “esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro:
Record, 1978, p. 217-218)