Um velho amor
Quando meus pais morreram, eu morava longe, e meu
irmão se ocupou de esvaziar o apartamento de nossa infância.
Acedi a seu desejo de guardar consigo nossos antigos
brinquedos. Nestes dias (depois de tantos e tantos anos), passando duas semanas em sua casa, na Itália, explorei, pela primeira vez, um armário de três portas, onde encontrei nossos
velhos jogos, um quebra-cabeças, um porta-aviões sem aviões,
um “Pequeno químico”, caminhões etc. Atrás desse amontoado
esbarrei num helicóptero, bem guardado em sua caixa original.
Eu o ganhei no Natal dos meus sete ou oito anos. Ameio à primeira vista: levantara-me secretamente na madrugada e
fora vasculhar os presentes, dando com ele. Não era teleguiado
(era o começo dos anos 50), mas voava; era ligado por um cabo
a um comando (não elétrico): ao girar (freneticamente) uma manivela, o movimento era multiplicado e transmitido até às pás do
rotor, de forma que, efetivamente, o helicóptero se levantava até
o braço da gente cansar.
Amei o helicóptero. Amei a sensação de que ele voava
não por alguma mágica, mas pelo meu esforço. Brinquei com
ele mais ou menos uma hora, até que, inexplicavelmente, ele se
quebrou: eu acionava a manivela, ouvia um ruído de engrenagens infelizes, e as pás permaneciam paradas. Eu não aguentava a ideia de que meus pais tivessem notícia da morte
precoce de seu presente, que tinham escolhido com carinho.
Em suma, eu precisava proteger meus pais.
Não disse nada: coloquei o helicóptero de volta na caixa
e o levei para a cama comigo. De manhã, consegui convencer a
todos de que aquele era meu presente preferido, por isso não
queria que ninguém mais o tocasse. Mantive essa ficção
durante os dias seguintes. De fato, ninguém nunca mais brincou
com ele.
E agora o helicóptero está aqui, na sua caixa de origem
– símbolo da minha vontade sofrida e um pouco louca de fazer
e proteger a felicidade de meus pais. Tem cara de novo, mas é
um pouco tarde para invocar a garantia.
(Adaptado de Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo, 01/07/2010)