Texto associado Cigarros Eletrônicos: um crime continuado
Por Dráuzio Varella
No decorrer do século passado, a indústria do fumo investiu bilhões de dólares em campanhas publicitárias ao redor do mundo, para associar o cigarro às práticas esportivas, ao sucesso profissional, à beleza das mulheres e ao charme dos homens ricos. Com essa estratégia traiçoeira, subornos e um lobby político milionário corrompeu autoridades e calou a mídia. Qualquer notícia, matéria ou comentário que mencionasse um problema de saúde causado pelo fumo era punido com retaliação financeira. A ciência provou a associação entre cigarro e câncer ainda nos anos 1950. A pressão das companhias, no entanto, impediu que essa informação fosse veiculada pela imprensa por mais de três décadas. Quando o mundo se deu conta das inúmeras doenças ligadas ao fumo e dos custos para os sistemas de saúde, diversos países iniciaram campanhas educativas e criaram leis para proibir a publicidade pelos meios de comunicação de massa. Embora anos mais tarde do que os países industrializados, o Brasil adotou uma série de medidas de combate ao fumo, consideradas exemplares pelos especialistas da OMS. Como consequência, a prevalência de adultos fumantes em nosso país caiu para menos de 10%. Hoje, fumamos menos do que os norte-americanos e do que em todos os países da Europa. Atenta .... transformações sociais que levaram à diminuição do número de fumantes e às perdas provocadas pelas mortes precoces dos consumidores, a indústria criou o cigarro eletrônico. Não fiquei surpreso, mais de 30 anos frequentando cadeias me ensinaram a não subestimar a perversidade do mundo do crime. Os eletrônicos foram lançados com o pretexto de que seriam indicados .... fumantes interessados em vencer a dependência de nicotina. Veja se faz sentido, prezado leitor: uma indústria que acumulou lucros astronômicos com a venda de cigarros para dependentes de nicotina _________ um dispositivo para inalar nicotina com a finalidade de reduzir o número de fumantes. Haja ingenuidade para acreditar nessa gente. Tal ação jamais foi comprovada em estudos científicos. Em compensação, o sucesso de vendas para o público infanto-juvenil foi avassalador. As crianças e os adolescentes de hoje fumam os eletrônicos, como eu e os do meu tempo fumávamos os cigarros convencionais, sem ter ideia do mal que faziam. Para eles, como para nós, era apenas uma fumaça inócua que nos ajudava a parecer adultos. Acontece que os eletrônicos _________ doses altas de nicotina, droga que provoca a mais escravizadora das dependências químicas. Já disse várias vezes nesta coluna que é mais fácil largar do crack do que da nicotina, como aprendi nas cadeias. Crianças e adolescentes que começam a fumar a nicotina presente nos eletrônicos não conseguem parar. O esforço de décadas de combate ao fumo está sendo atirado no lixo: criamos uma nova geração de dependentes de nicotina que não fumaria cigarros convencionais. Neste momento, a indústria movimenta seu lobby de aluguel para que a Anvisa aprove os eletrônicos. Com a desculpa de trazer para o controle das autoridades sanitárias .... qualidade dos produtos nocivos que comercializam, o que pretendem é conseguir autorização da Agência para disseminar a dependência de nicotina no meio da criançada. Exatamente o mesmo crime continuado cometido contra a minha e as gerações que me antecederam. (Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
I. Dráuzio Varella compara a ação da indústria de cigarros com o mundo do crime.
II. A estratégia da indústria do fumo para contornar sua imagem negativa consistia apenas em
propagandas que veiculavam uma ideia de saúde e energia associada ao tabagismo.
III. O Brasil foi pioneiro na adoção de medidas de combate ao fumo e, por isso, é reconhecido por especialistas da OMS.
Quais estão corretas?