Texto CB1A2-I
Com o intuito de mostrar os procedimentos ardilosos de
pessoas sem escrúpulos que movidas pelo ódio e por ambições
políticas inventam mentiras e as transformam em supostas
verdades, Umberto Eco escreveu O Cemitério de Praga,
publicado em 2010.
Tendo como base fatos e personagens verídicos que
participaram da elaboração e da disseminação de Os Protocolos
dos Sábios de Sião, o autor reconstrói o século 19 através de
uma narração polêmica. Eco narra o nascimento e a evolução
desse abjeto complô, criado com a finalidade de atribuir aos
judeus uma fictícia conspiração para dominar o mundo.
Os falsos documentos forjados pela polícia secreta do
Czar Nicolau II, em 1897, foram utilizados por Hitler em sua
política de extermínio, tendo sido incluídos em Mein Kampf,
apesar de o jornal britânico The Times, em 1921, já ter
desmascarado a farsa.
Mesmo após a comprovação da farsa, o magnata Henry
Ford levou os Protocolos, na tradução inglesa, para os EUA, e
publicou-os em forma de livro, e o rei Faisal, da Arábia Saudita,
costumava oferecê-los, em sua versão árabe, às autoridades que
visitavam o país.
Em uma de suas entrevistas aos jornais italianos,
Umberto Eco ressaltou o perigo que se esconde nas chamadas
“conspirações falsas”, pelo seu alto grau de manipulação e dada a
dificuldade em desmenti-las. “A característica de uma
conspiração verdadeira é que ela é invariavelmente descoberta”,
analisa. “Hitler e o nazismo propagaram a falsa conspiração dos
judeus como verdadeira e tiraram proveito dos Protocolos.”
Mas por que as pessoas ainda consomem essa farsa? Será
por ignorância? Por curiosidade? Os Protocolos, afinal, seguem
sendo oferecidos e vendidos em uma dezena de idiomas, em
formato de livro, com circulação livre na Internet.
Juíza em Israel por mais de 30 anos, Hadassa Ben-Itto
investigou o embuste durante seis anos e em 1998 publicou um
livro sobre o assunto. “Escrevi esse livro como um desafio a
todos aqueles que inadvertidamente permitem que essa e outras
mentiras similares sejam espalhadas e provoquem danos
contínuos”, explica.
Em sua opinião, o conceito de “liberdade de expressão”
não deveria acobertar mentiras. “Uma mentira deliberada não é
uma ideia”, reforça. “Ela pode facilmente se transformar em uma
arma perigosa e como tal deve ser banida, assim como outras
armas que têm o potencial de causar assassínios em massa e
destruição.”
Sheila Sacks. Internet: (com adaptações).