Leia o poema de Mário Quintana para responder
a questão.
Naqueles longes tempos, era ele vítima de um
cirurgião-dentista que, de repente, do outro lado da
sala do café, da outra extremidade do bonde, da
calçada oposta, lançava intempestivamente o seu
vozeirão:
- Como vai a poesia?
Todas as cabeças que se achavam de permeio
voltavam-se então para o Poeta. O poeta, nu,
desmascarado, em meio à multidão! Para evitar
esses atentados ao pudor, ele afinal descobriu um
meio: fazer a pergunta antes que o outro a fizesse.
Mal avistava o dentista, e antes que este erguesse
as trombetas de sua voz, que não lhe soavam
propriamente como as trombetas da Fama, mas
como as cornetas falhas da Difamação – bradava
alvissareiro o Poeta:
- Como vai o maçarico?!
As cabeças de permeio voltavam-se então
escandalizadas ou irônicas para o CirurgiãoDentista. Não porque fosse uma vergonha utilizar
esse útil instrumento, mas porque maçarico era
mesmo uma palavra muito engraçada, uma palavra
que rimava com a dança do sarapico-pico-pico e com
surubico. O resultado de tudo isso foi que os papéis
se inverteram: o dentista pegou medo do poeta.
Fonte: QUINTANA, M. Como vai a poesia? In: Sapo Amarelo. São
Paulo: Global, 2006. (adaptado).