Leia o texto para responder à questão.
O velho
O velho entrou na catedral de Freiberg
pelos fundos, como fazia todos os domingos, e
dirigiu-se para o seu nicho. Ficou sentado na
laje fria, encostado na parede, encaracolando e
desencaracolando uma mecha de barba branca
enquanto esperava pelo sacristão. Pensando na
sua vida. Pensando em nada.
O sacristão trouxe o pão e o vinho,
como fazia todos os domingos, e contou que a
igreja estava cheia. Ele não queria olhar? O
velho deu de ombros. Só queria comer e fazer o
seu trabalho. Cheia ou vazia, era a mesma
igreja.
Sabe quem vai tocar aqui hoje?
perguntou o menino. Quem? Bach. Quem?!
Bach, o grande Bach. Por isso a igreja estava
cheia. Você não sabe quem é Bach? O velho
deu de ombros. Nem queria saber. Só estava ali
para fazer seu trabalho.
O menino disse que tinha pena do velho.
O grande Bach ia tocar no órgão da catedral de
Freiberg, no grande órgão que o grande
Gottfried Silbermann levara quatro anos
construindo para a grande catedral de Freiberg,
e o velho nem se importava? Você merece a
vida insignificante que leva, disse o menino,
recolhendo o copo tosco em que trouxera o
vinho e deixando o velho no seu nicho,
encaracolando e desencaracolando a barba.
Dali a pouco o velho ouviu um “Pst” e
depois um “Você está aí?”. Não respondeu. Não
se moveu do seu nicho. Outro “Pst”. O velho
nada. Só quando a voz cochichou mais alto,
com uma ponta de apreensão — “Ei, você está
aí?” — é que respondeu: “Estou”. “Pode
começar”, disse a voz.
O velho dirigiu-se para os foles. Mas
não começou a acioná-los logo. Ainda esperou
dois longos minutos. Se alguém visse o seu
rosto então, não saberia dizer que tipo de sorriso
era aquele. Depois o velho começou a acionar
os foles e o som glorioso do grande órgão
encheu a catedral.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São
Paulo: Objetiva, 2020.