Enquanto os deuses dormem, ou fingem dormir, as
pessoas caminham. É dia de feira neste povoado perdido
nos arredores de Totonicapán e o vaivém é grande. De outras
aldeias chegam mulheres carregando pacotes pelas veredas
verdes. Elas se encontram na feira, hoje aqui, amanhã
acolá, neste povoado e em outro, como dentes que vão rumo
à boca, e conversando vão sabendo das novidades, lentamente, enquanto vendem, pouco a pouco, uma coisinha ou
outra.
Uma velha senhora estende seu lenço no chão e ali deita
sua mercadoria: defumador feito de um cacto chamado
nopal, tinturas de anil e de cochonilha, algumas pimentas
bem picantes, ervas coloridas, um jarro de mel silvestre,
uma boneca de pano e um boneco de barro pintado, faixas,
cordões, fitas, colares de sementes, pentes de osso, espelhinhos...
Um turista, recém-chegado à Guatemala, quer comprar
tudo. Como ela não entende, ele explica com as mãos: tudo.
Ela nega com a cabeça. Ele insiste: você me diz quanto quer,
eu digo quanto pago. E repete: compro tudo. Fala cada vez
mais alto. Grita. Ela, estátua sentada, se cala.
O turista, exausto, vai embora. Pensa: Este país não vai
chegar a lugar nenhum. Ela vê como ele se afasta. Pensa:
Minhas coisas não querem ir embora com você.
(Eduardo Galeano, Bocas do Tempo)