Muita gente pensa que as palavras têm um sentido fixo
e verdadeiro. Entre os defensores dessa tese, os mais
sofisticados argumentam em nome de um sentido antigo,
supostamente originário. Não deixa de estar implícita
nessa tese uma generalização dela, segundo a qual
antigamente tudo era melhor (do paraíso antes da queda
às línguas antes de Babel). Entretanto, o que melhor se
pode saber sobre as línguas decorre da observação
cotidiana do que fazem com ela os falantes. E o que os
falantes mais fazem com ela é puxá-la para seu lado.
Se se quer entender minimamente uma língua, talvez
o melhor caminho seja olhá-la com olhos de sociólogo
(em vez de consultar uma gramática ou um dicionário):
e o que primeiro se vê é que ela não é (nenhuma delas)
uniforme – assim como não o é nenhuma sociedade.
É mais comum que se observe a heterogeneidade de
uma língua com base na diversidade de sotaques e
de construções gramaticais (de que 'nós vamos' / 'nós
vai' pode ser uma espécie de símbolo). Mas há tanta
variedade de sentidos quanto de pronúncias ou de
concordâncias verbais e nominais.
Muitos pensam que, assim, nunca nos entenderemos.
Mas é óbvio que não. Se nos entendêssemos, por que
existiria a história de Babel?
POSSENTI, Sírio. Disputa de sentidos.
Instituto Ciência
Hoje. Disponível em:
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http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/d...> .
Acesso em: 11 ago. 2015. Adaptado.